sábado, maio 23, 2009

Cidadã Honorária de Campo Mourão



Tenho certeza de que todas as pessoas que aqui se encontram têm lembranças fortes, uns de um passado longínquo, outros de um passado mais recente.

Hoje eu estou aqui para firmar uma lembrança alegre- uma marca para mim, para meus filhos, meus netos e esse grupo de minha família e de amigos que me acompanha- penso, especialmente, em meus netos, que estão aqui todos, presenciando esta solenidade.

Eles poderão no futuro, quando eu já não estiver mais aqui, contar que assistiram uma cidade conceder o título de CIDADÃ HONORÁRIA a uma simples mulher que, para receber esta honraria apenas estava no lugar certo e na hora certa, contribuindo com sua sensibilidade a uma “cidade-menina” que carecia de tudo e despontava pujante no estado do Paraná.
Uma cidade tão especial, tão surpreendente, tão à frente e acima dos padrões de avaliação conhecidos, que não lhe cobrou títulos nem vistosas ações.Apenas pesou, talvez, sua modesta atuação na assistência social, quando aqui tudo era preciso e tínhamos tanto a fazer pela cidade.

Fico a pensar no que os levou a essa homenagem...

Terá sido pela autoria da singela música do HINO DE CAMPO MOURÃO?

Creio que não... só isso não seria suficiente para tão expressiva homenagem.

Muitos aqui talvez não saibam mas, além de lecionar no Colégio Estadual e na Escola Normal, participei com muito empenho num projeto de assistência à Maternidade e à Infância, quando tudo aqui estava começando e tudo era muito difícil de conseguir e eu acho que, muito mais que pela minha atuação como professora e pela composição do HINO DE CAMPO MOURÃO, o responsável maior por eu estar aqui é o SR. JOÃO...



O “SEU” JOÃO

Fazia poucos meses que eu morava em Campo Mourão.

Tinha 23 anos e um filhinho de 5 meses.Era vizinha do Bispo de Campo Mourão que, um dia, mandou-me um convite para um lanche em sua casa. Surpresa, pois quase ninguém conhecia, compareci e lá encontrei várias senhoras que, mais tarde, vim a saber que faziam parte expressiva da sociedade local. Eram as esposas de médicos, empresários, juiz, prefeito, promotor, comerciantes e representantes de todos os setores.

Antes do lanche o Sr.Bispo, Dom ELISEU SIMÕES MENDES, explicou o motivo do convite e deixou-nos a todas aturdidas. Ele solicitara, em todo o municípoio, um levantamento sobre a mortalidade de parturientes e recém-nascidos e o resultado foi aterrador.

Não me lembro mais das proporções, mas era deveras preocupante e dom Eliseu nos disse que nos reunira ali para ver se conseguiríamos ajudar de alguma forma a minorar o problema, já que o governo não parecia que viesse a dar conta desse setor.

Sugeriu que fundássemos uma sociedade beneficente, pediu que refletíssemos sobre a gravidade do problema e a nossa responsabilidade e marcou uma nova reunião. Foi assim que surgiu a A.P.M.I. de Campo Mourão ( Associação de Proteção à Maternidade e à Infância de Campo Mourão), respaldada pelo bispado, e apoiada por todos os segmentos da sociedade.

Pusemos mãos à obra, todos se prontificaram a ajudar, os médicos se puseram à disposição e, formando equipes, andávamos pela cidade angariando sócios para a nova entidade, o que surpreendia muitos cidadãos, para quem explicávamos os objetivos da nova sociedade.

Foram afixados avisos em todas as igrejas e capelas do interior, postos de saúde, fórum, escolas, prefeitura...

Os padres explicavam após o Evangelho, tudo convocando as mulheres grávidas a virem fazer o pré-natal e trazerem seus bebês para serem examinados, vacinados e acompanhados pelos pediatras que, aliás, foram de grande ajuda para a nossa empreitada.

Conseguimos uma casa modesta e nos preparamos com palestras dadas pelos médicos e pediatras para iniciarmos a orientação às gestantes.

Paralelo a isso, funcionava por iniciativa do bispado e da prefeitura, um CLUBE DE MÃES, que, ao nosso lado, passava às mães noções de higiene, cuidados e alertas aos sintomas de doenças

Mas a coisa não andava...

Nós tínhamos tudo organizado e não conseguíamos convencer as gestantes a se submeterem a exames e tratamento. Nada surtia o efeito esperado, umas poucas atendiam o nosso apelo.

O povo do interior, arisco e desconfiado, não acreditava no nosso apelo e ainda vigorava fortemente o velho costume dos partos feitos pelas “comadres” e o costume atávico de não se expor a médicos- especialmente as mulheres.

Nós não sabíamos mais como fazer para conquistar a confiança dos caboclos, e eram eles especialmente o nosso objetivo, pois no interior do município é que se apresentava o pior do problema

Estávamos desanimadas...

Um dia meu marido, que era Inspetor de Terras, ia entregar uns documentos num sítio longe.Estava uma manhã bonita e ele me perguntou se eu não queria ir junto.Eu, que não conhecia a região, gostava de fazer esses passeios e lá me fui com meu gurizinho ao colo.

O “jipe” ia “corcoveando” pelos carreiros íngremes e paramos em vários lugares, onde meu marido descia e conversava com os homens. Chegamos à casa do tal senhor que ele procurava, onde a mulher nos indicou para que lado do sítio eles estavam trabalhando e lá fomos , em meio à plantação.

Uma coisa me havia chamado a atenção. Nos lugares onde passávamos havia sempre o som de um rádio tocando alto músicas da época— o radinho de pilha era a maior novidade e a febre do momento.

Quando afinal chegamos onde estavam trabalhando—eram muitos homes, mulheres e crianças—meu marido desceu do “jipe”, achou quem estava procurando e lá ficaram conversando.Eu observava tudo quieta mas atenta e, de repente, uma coisa me chamou a atenção: pendurado num galho de cafeeiro e tocando bem alto lá estava ele: o RADINHO DE PILHA.

Foi o sinal!Naquele instante me veio a idéia de que ESSE era o caminho para chegarmos até eles!

Na volta à cidade, em nossa primeira reunião, expus minha idéia mas, achando graça e com reservas, muitas senhoras consideraram difícil pormos em prática esse novo estratagema de divulgação.

Justamente uma das senhoras do nosso grupo, dona Elza Brisola Maciel, era a diretora da difusora de rádio local e se entusiasmou com a idéia, colocando a emissora a nossa disposição e eu me prontifiquei a fazer o programa. Isso para mim não era difícil já que tivera, em solteira, nos meus tempos de estudante, contato com o microfone da Rádio Ministério da Educação, no Rio, num programa semanal de música clássica.

Com certa vacilação a respeito do sucesso, a idéia terminou aprovada porque, afinal, não nos custava tentar e precisávamos fazer alguma coisa.

E assim surgiu o programa da A.P.M.I. na Rádio Colméia de Campo Mourão, comigo ao microfone. É claro que todos me ajudaram com sugestões e contei com a ajuda dos pediatras para me orientarem nos conselhos que daria e minha idéia era falar dum modo que, realmente, chegasse até eles.

O programa era semanal e saiu mais ou menos assim:

Eu me apresentava, dizia que era de uma entidade nova que fora fundada para proteger as mães e as crianças e, principalmente as gestantes e dizia que era para todas as mulheres. Que sabia das dificuldades que tinham por morarem tão longe da cidade e que estávamos, justamente com aquele programa, de MÃE PARA MÃE, tentando ajudá-las.

Eu passava algumas noções básicas sobre cuidados com tosse, diarréia, verminose, anemia, mostrava como identificar os sintomas e falava de legumes, hortaliças e frutas, como deviam ser tratadas e lavadas, tudo de maneira bem simples para que compreendessem bem, e , às vezes repetia, dizendo:” Eu sei, dona Maria, que a senhora não sabe escrever para anotar, mas tem cabeça boa! Preste atenção! Vou repetir bem devagar e vá guardando aí na memória!”

Passava receitas de aproveitamento de alimentos, sopas, bolachas, bolos, maneiras de armazenar alimentos e higiene em geral.

Depois falava com os homens e, com eles, era bem dura.

“E então, “seu” Zé! Cuidando da lavoura, hem? Está mesmo ficando uma beleza! Desta vez o senhor acertou no adubo e plantou na hora certa... Isso é muito bom, a colheita é garantida!... Mas encosta a enxada um pouco e vem aqui na sombra que eu quero lhe falar!...”

Aí eu “pagava pesado”...

“Pois é, “seu” Zé... a lavoura está indo bem. O tempo está ajudando...olha, pensa que eu não sei? O senhor está até pensando em comprar um tratorzinho, ou tratar mais gente para lhe ajudar no ano que vem, não é verdade? Tem lá os seus planos, não é isso? Isso é muito bom...muito bom...E lá na sua casa, hem? Também está planejando alguma coisa? Coitada da dona Rosa!...Já está “de barriga” de novo e puxando água do poço para lavar roupa, cozinhar e dar banho nas crianças.Aliás elas andam até “fedidinhas” por tomarem pouco banho...E sabe que elas não podem andar descalças, não é, “seu” Zé? Pegam lombriga, bicho de pé e outras coisas ruins que não quero nem falar”!...

“O senhor não me leve a mal... mas que tal separar um dinheirinho da colheita e puxar água para dentro de casa? O olho d’água não é longe!...E, pense bem! Que beleza vai ser para todo mundo! A dona Rosa então vai ficar muito feliz! Não precisa mais andar arrastando aquele balde pesado...”

Outro dia eu falava com o “seu” João... e ia mais ou menos do mesmo jeito:
-“Ô “seu” João!, “tá” bonita a lavoura este ano, não é?É... no ano passado o senhor sofreu...também a chuva atrapalhou e acabou plantando meio tarde, não foi? Ou foi muito cedo? Ou foi o adubo que não era bom? É...precisa ver tudo isso para não ter aborrecimento mais tarde...Falando nisso, já estou sabendo. Dona Tereza está “esperando” de novo...o senhor vai ligeiro, hem? Veja bem...O que o senhor faz quando a terrinha está meio fraca? Vem aqui na cidade buscar adubo, fertilizantes e outras coisas mais para fortalecer a terra, não é? E o senhor já pensou na dona Tereza? Um filho atrás do outro e trabalhando do jeito que ela trabalha, o senhor não acha que ela precisa de uns fortificantes também ? O senhor não vai querer que o moleque nasça “mirradinho”, vai? Pois é, “seu” João! Tem de tratar dela também!Tem de trazer a dona Tereza com as crianças até aqui, procurar a gente na A.P.M.I. , que dá assistência com médicos e remédios e exames às mães e às crianças, assim como a Casa Rural lhe ajuda aqui! Se a dona Tereza se tratar, vai ver só a saúde do “garotão” que vem vindo! E trazer os outros também para fazer exames, para ver se não precisam de remédio para as lombrigas.E o Pedrinho com essa tosse braba, hem? Traz eles até aqui para a gente ver isso!

Olhe, aproveite e vá também à Prefeitura que lá eles lhe dão toda a orientação para fazer a “casinha” no lugar certo. O senhor sabe que precisa ter uma ”casinha” bem localizada, não? Senão corre perigo de estragar a água e daí, Deus me livre! Aí vem um montão de problemas! Mas o que não pode mais é ficar sem “casinha”... o senhor me entende, não é, “seu” João? Venha até aqui falar conosco que nós o orientamos!... Tem muita coisa boa que dá para vocês aproveitarem e, VEJA BEM, sem despesa, viu? É só vir e trazer a família...”

Outro dia eu falava com o “seu” Antonio, depois com o “seu” Pedro, com o “seu” Francisco, e as conversas eram por aí, mais ou menos as mesmas.

Certo dia estava eu em casa quando a empregada veio me dizer que tinha um senhor a minha procura.Perguntei a ela se não era meu marido que ele procurava já que a Inspetoria de Terras era junto, no mesmo lote. Ela disse que não, que era comigo que ele queria falar.

Cheguei à porta e lá estava um caboclo bem vestido, de botas lustrosas e chapelão ajeitado, tendo a mulher grávida e as crianças ao lado, bem arrumados, muito tímidos e de cabeça baixa.

Fui até eles e perguntei se era a mim mesmo que procuravam. O homem, muito altivo e respeitoso, me perguntou:
-“A senhora é que é a dona Walkyria ?”
-“Sim, senhor” respondi.
-“Pois é com a senhora mesmo que eu vim falar!... A senhora FALOU COMIGO OUTRO DIA PELA RÁDIO. Eu assuntei... assuntei... e achei que era bom mesmo trazer a “famia” para fazer os “tar” de exame...”

Eu fiquei tão emocionada que me vieram lágrimas aos olhos!

Meu Deus! Eu estava conseguindo!

Mandei-os sentar, servi-lhes um refresco e tratei de encaminhá-los, depois de conversarmos um pouco. Vinham de longe, do “fundão” do município.

Eu mesma fui levá-los e queria que se sentissem à vontade. Durante a consulta da mulher com o ginecologista fiquei ao lado dela que, envergonhada, relutava em responder as perguntas do médico e eu tentava quebrar sua timidez e insegurança.

As coisas começaram a mudar. A afluência de gestantes e crianças foi aumentando, fomos ganhando a confiança deles mais depressa e, não muito depois, com verbas do governo, auxilio forte do bispado, da prefeitura e do povo— promovíamos lanches, desfiles de modas, barraquinhas de pastéis nas feiras e feijoadas— conseguimos construir uma nova e ampla sede que, além do Clube de Mães, cozinha para aulas, consultórios para os médicos e sala de espera, tinha até um consultório dentário, atendido pela nossa companheira, Dra. Kátia Braga.

Acho que vem daí a causa desta reunião festiva que tanto me gratifica...

Foi por causa do meu jeito de falar ao microfone que consegui atrair uma faixa carente da população do município que, orgulhosa, analfabeta e arisca, resistia às “modernidades” da cidade.

Devo ao Sr. JOÃO, que atendeu e entendeu o meu apelo, que confiou no que eu dizia. Por influência dele, talvez, muitos outros Srs. João, e Antonio, e Pedro, e Manuel e Francisco vieram em seguida, quebrando um “tabu” de resistência que tanto os prejudicava.

Foi o começo. Eu apenas estava aqui no momento certo...

Obrigada minha cidade querida!

AS lembranças dos anos que vivi aqui sempre me são muito gratas e sempre me considerei mourãoense de coração. Passei aqui os anos mais fortes e produtivos de minha vida... e lhes sou muito grata por eles.

Obrigada minha cidade!

Walkyria Gaertner Boz

sábado, abril 25, 2009

Meu Colega Cosme


Era um menino baixinho e quieto Era negro também, mas ninguém se importava com isso, não me lembro disso fazer diferença, naqueles idos de 1950. No Rio de Janeiro, onde me criei, quase todos éramos mestiços e descendentes de imigrantes, com muita ênfase em descendentes de portugueses, com os sobrenomes Silva, Pereira, Oliveira, Santos muito disseminados. Ele chamava-se Cosme...


Eu sim, me considerava uma discriminada. Meu nome era sempre motivo de comentários dos professores sobre imigração européia e minha ascendência italiana e alemã, com nome e sobrenome de letras complicadas, era sempre motivo de curiosidade, especialmente numa escola pública de subúrbio pobre carioca...


Ele não, nele tudo era simplicidade. Era bom aluno, atencioso e educado com os colegas, sempre se destacava entre os primeiros da classe. Eram uns dez meninos somente, mas ele se destacava também, a meus olhos, por estar sempre com a farda impecável.


Uma coisa que agora me chama a atenção é o porquê da “farda”. Num calor constante como no Rio, os meninos usavam farda de brim cáqui, cheia de bolsos chapados e botões dourados, com cinturão e mangas compridas como dos militares, enquanto nós, meninas, usávamos saia marinho de pregas e blusa de mangas curtas branca, bem mais de acordo com o clima local.


Mas não é disso que me propus a falar.


Sentávamo-nos por livre escolha nas carteiras, misturados naturalmente pelas afinidades e tudo ia muito bem até que, não sei por que motivo, um dos professores resolveu nos separar e colocou os meninos nas carteiras do fundo da sala. Naqueles tempos se obedecia sem rebeldia e os professores eram respeitados e tratados com deferência pelos alunos e suas famílias, bem diferente do que se vê hoje-- comportamento inimaginável para mim, que não acredito ser possível aos mestres serem tratados como o são hoje.


Tínhamos provas orais e escritas em junho e em dezembro. Estudávamos mesmo para passar de ano, e eram tempos de muito trabalho e nervosismo.


Eis que, de repente, fui chamada à sala da Diretora. Eu estava monitora de classe e, com certeza, conhecia bem meus colegas. Estavam alguns professores lá, aparentemente me aguardando, e me senti apreensiva com o que poderia estar chegando. Que estava acontecendo?


A Diretora me perguntou o que eu achava do Cosme. Eu, certamente, olhei para todos com cara de “ponto de interrogação” e, sem entender nada, disse que o achava um bom colega e que sempre fora um bom aluno.Mas o que estava acontecendo com ele? Estava doente?


A Diretora me disse que ele colara na prova final de História que fizéramos na antevéspera.
Que? O Cosme? Colando? Em prova final? Fiquei pasmada e disse que não acreditava. Ainda mais em História! Ele era ótimo em História!


A Diretora me disse que ele já estava sendo vigiado e que dera mostras já, nas provas de Geografia e Ciências do mesmo problema.


Mas não pode ser, disse eu!Ele é ótimo em todas essas matérias!


A Diretora olhou muito séria para mim e me dispensou. No dia seguinte fui chamada à sala da Diretora de novo e, para minha surpresa, lá estavam quase todos os professores, o Cosme e seus pais, humildes e assustados.


Deus do céu! Vão expulsar o Cosme!Como é que foi acontecer isso?


Foi um verdadeiro julgamento. Eu estava como testemunha da classe e do que ocorreria em seguida e também estava muito assustada, com muito dó do meu colega.


A Diretora explicou a todos do que se tratava e, tratando os pais dele com bondade, disse-lhes da gravidade da situação. Pediu então ao professor de História que mostrasse a prova do Cosme e em seguida fizesse as perguntas. Meu colega estava altivo, apesar de assustado e não baixou a cabeça e respondeu, inclinando a cabeça para a frente para melhor ouvir as perguntas, que nunca tinha colado.O professor repetiu a pergunta e ele continuou negando.


Eu tremia de aflição.


O Cosme então, em desespero contido e educadamente, pediu ao professor que lhe fizesse qualquer pergunta da prova. Todos os professores se entreolharam e a Diretora acatou o pedido, dizendo ainda que, se ele acertasse a resposta, seria aprovado.


Era uma luz no final do túnel, mas será que o Cosme agüentaria? Certamente o professor faria a pergunta mais polêmica e de interpretação dúbia para pegá-lo numa armadilha. Eu continuava tremendo... Como ele conseguiria?


O silêncio era total. O momento era decisivo. Da resposta dele dependia não só a aprovação anual do Cosme, mas também a sua honra.


O professor, muito sério, fez a pergunta e, dado a gravidade do momento, a repetiu pausadamente.


Eu, de aflição, suspendi a respiração e acho que todos fizeram o mesmo.


O Cosme, olhando firme para o professor, começou a responder alto e em bom som. E, à medida que ele falava, todos nos entreolhávamos.


Meu Deus! Que é isso?


O professor, pálido, silenciosamente abriu o livro e o colocou à frente da Diretora. O Cosme repetia, palavra por palavra, os dizeres do livro, tal e qual!


E não parava! Continuou recitando o capítulo, com todas as palavras do livro!A surpresa dos professores foi tal que todos se entreolhavam sem entender. O professor de História baixou a cabeça, a Diretora e os pais do Cosme choravam. Eu também.


Ele continuava recitando o capítulo. Eu olhava para a Diretora como a perguntar: Não chega? Até que ela, em seguida, mandou-o parar.


Todos estávamos muito emocionados e mais ainda ficamos quando a Diretora lhe perguntou por que ele sabia o livro de cor.


Ele, muito encabulado, como se estivesse expondo algo muito íntimo e muito feio, disse que quase não ouvia o que o professor dizia e, como se sentava lá atrás, se obrigava a decorar todas as matérias discursivas.


A Diretora, estarrecida, perguntou à mãe dele se era verdade e a senhora, muito nervosa, confirmou, dizendo que o Cosme não queria que ninguém soubesse por que tinha muita vergonha disso.Ele estava surdo!


A tempestade, que se anunciara tão feia se abriu num sol esplendoroso...


Foi uma alegria geral. Corri a abraçar meu colega que chorava agora, terminada a tensão, e o mesmo fizeram todos os professores.


O Cosme foi aprovado com “HONRA AO MÉRITO”...


Onde anda você, meu amigo?

Curitiba, 15 de abril de 2009.

quarta-feira, abril 22, 2009

Ausência


Faz tempo...

Faz tempo que não me permito a felicidade de escrever, de soltar as amarras e deixar minh’alma livre, fugindo da realidade e sumindo no sonho.

Estou como o pássaro engaiolado que não consegue nem cantar e se restringe a ver os dias passarem e passarem, nunca iguais... sempre cheios de sobressaltos e nuvens sombrias ou alegrias esperadas ansiosamente que demoram demais a chegar e, às vezes, quando vêm, o dia já está escurecendo e tudo perdeu a graça... já passou a hora e não mais importa...

Faz tempo...

O meu dia já vai escurecendo e meu tempo vai passando muito depressa. Será que ainda terei chance de me derramar em histórias e me exaurir escrevendo temas em que repasso minha maneira de enxergar as pessoas no tempo e o tempo das pessoas com quem convivi? Às vezes um convívio irreal, fora completamente do estranho mundo em que vivemos, mas vívidas em minhas tramas e temas de um mundo sonhado e fantástico.

Eu prometi, no prefácio de minhas "Folhas-do-outono" que, como as folhas de outono, rolando e se esfacelando ao vento, expostas ao tempo, eu arrancaria de mim os enredos e tramas, histórias e crônicas que talvez pudessem até ser apreciadas por pessoas que procurassem na leitura um passa-tempo, uma identificação ou até um pouco de conhecimento ao se embrenharem por "lugares nunca dantes explorados".

Faz tempo que dei uma pausa e que nada mais escrevi.

As "folhas–do-outono" passaram por um vendaval, por um "tsunami" que arrastou tudo no turbilhão da vida. Estou ainda em estado de choque, desde que perdi minha filha CRISTINA. O desânimo, o desalento diante da impotência humana e da inexorabilidade da morte fizeram as "folhas-do-outono" caírem na correnteza desenfreada da vida e, em torvelinho, despencarem nos bueiros escuros do desencanto.

A tempestade passou, a devastação ficou, mas a vida continua, exigindo e cobrando continuidade e ação.

Então, aqui estou de volta e tentarei manter as "folhas-do-outono" rolando ao vento e se esfacelando e se desmanchando, e se despedaçando... até virarem pó.

sábado, março 31, 2007

Santuário Parananense de N.Sra. Aparecida



SANTUÁRIO PARANAENSE DE
N. SRA. APARECIDA

O Sr José Boz, meu sogro, era gaúcho, filho de imigrantes e criado numa colônia de italianos. Era semi-analfabeto e mal falava o português. Um dia, adolescente, resolveu ganhar o mundo e partiu de Caxias do Sul, junto com o irmão, Vitório, rumo norte, atravessando Sta. Catarina , parando onde encontravam trabalho e aceitando todo tipo de serviço que lhes garantisse sobrevivência.

Sempre seguindo rumo norte, levaram anos. Atravessaram Sta. Catarina e entraram no Paraná, sempre atrás de melhores oportunidades, trabalhando em lavouras, cuidando de cavalos, derrubada de árvores, colheitas, trabalhando de carroceiro, em construção de casas etc. Eram rapazes fortes e muito trabalhadores. Meu sogro chegou a aprender o ofício de “ferreiro”.

Por caprichos do destino, ambos terminaram por ”enroscar” o coração na região de Palmas , onde o Sr. José se casou com dona Etelvina e o Sr. Vitório com dona Carolina.

Dona Etelvina tinha apenas treze anos quando se casou. Era órfã e herdeira duma vasta extensão de terras, numa região muito linda e privilegiada, com cerrada mata nativa, nascentes e um campo a perder de vista, denominada HORIZONTE , no planaltão, próximo à cidade de PALMAS no Paraná.

Alí se enraizaram, trabalhando muito. Tiveram treze filhos, criaram doze, dos quais sete homens e cinco mulheres.

Nos idos de mil novecentos e vinte as dificuldades eram enormes, não havia nada de conforto, meu sogro, aí já muito conhecido como JOSÉ ITALIANO, construiu a casa ele mesmo, cortando as árvores e preparando as tábuas. Em tudo dependiam da cidade mais próxima onde chegavam de carroça, levando dias entre a ida e a volta.

Passaram por toda sorte de dificuldades e nunca esmoreceram. .Enfrentaram até um incêndio que lhes destruiu a casa e perderam tudo o que já haviam conseguido. A família foi acolhida por uns tempos na casa de Francisca, irmã de minha sogra, enquanto meu sogro construía um rancho rústico de madeira lascada e coberto de tabuinhas, de chão batido, que, pequenino, mesmo assim os protegia do frio. Sofreram e trabalharam muito, e o Sr, José, aos poucos, foi construindo uma nova casa, ampla e mais confortável.

Com o passar dos anos, as crianças crescendo, e eles morando tão longe das cidades mais próximas, meu sogro começou a se preocupar com o estudo das crianças. Conseguiram colocar as duas filhas mais velhas no internato do colégio das Irmãs, em União da Vitória, mas percebiam que seria quase impossível fazer o mesmo com todos os outros. E, depois que lá ficaram dois anos, as meninas voltaram para casa

A fazenda crescia e eles prosperavam com a criação de gado, o que já lhes permitia pensar no que, naqueles tempos e naquelas lonjuras, poderia ser considerado um luxo dispensável.---dar estudo a todos os filhos..

O destino também se incumbiu de ajudar, e eis que um dia por lá apareceu um professor em viagem, que depois de conversar bastante com meu sogro, aceitou morar na fazenda e tratar da alfabetização da meninada.

O professor era um senhor de barbas brancas que se dedicou com empenho à educação das crianças e de quem todos se lembram até hoje com um carinho muito especial.

Todos foram alfabetizados e alguns se destacaram, dentre eles meu marido, GERALDO, que, por ser muito esperto e bom “nas contas” como se dizia antigamente, recebia do velho professor, Sr Augusto, atenção especial. Quando ele lá chegou, o Geraldo tinha apenas cinco anos e, como não alcançava a mesa direito e queria escrever, aprendeu as primeiras letras no colo do professor

O Sr. Augusto dizia para meu sogro investir no Geraldo, que o mandasse estudar na cidade porque ele Alí, estaria sendo desperdiçado.

Meu sogro então comprou uma casa em União da Vitória e para lá levou as crianças , tendo as irmãs mais velhas, Isolina e Iracema, como responsáveis pela gurizada. Todos tiveram chance de estudar, mas depois de uns anos, alguns abandonaram. Dos homens, só Geraldo continuou e meu sogro, muito orgulhoso, trouxe o filho para a capital, Curitiba, para que ele fizesse um curso superior, que, pelo gosto do pai, seria medicina. Mas meu marido optou pela engenharia, já que sua matéria preferida era a matemática.

Custeado pelo pai, aquí viveu oito anos, onde fez o curso científico e depois engenharia na UFPR. Terminado o curso, ingressou no antigo DGTC(Departamento de Geografia, Terras e Colonização) e foi trabalhar no norte do Paraná.

Entretanto, enquanto Geraldo estudava, ele comprou mais uma fazenda, S. Sebastião, e colocou-a no nome dos outros onze filhos pois, considerando-se que custeava os estudos do Geraldo, já lhe estava dando uma fatia polpuda de recursos.

Nesse meio tempo, todavia, duas irmãs do Geraldo também foram fazer faculdade em Ponta Grossa, custeadas pelo pai.

Foi por ocasião da formatura de uma delas em odontologia, Dirce, que eu e Geraldo nos conhecemos e viemos a nos casar.

Moramos em Londrina, onde nosso filho mais velho nasceu e, em mil novecentos e sessenta e um, quando o Junior. tinha cinco meses, fomos para CAMPO MOURÃO, onde nasceram nossas outras duas filhas e lá vivemos por dez anos.

Fazia poucos meses que estávamos em Campo Mourão quando minha sogra e meu sogro vieram nos visitar e ficar uns dias conosco.

O Sr, José, após o café da manhã e como Geraldo estava trabalhando, saia a passear pela cidade. Ele gostava muito de andar e era muito conversador.

Um dia, em que ficamos a conversar após a refeição, o Sr. José disse ao Geraldo que o principal motivo da vinda dele ao norte era lhe trazer um dinheiro. Meu marido se espantou, não estava sabendo de nada!

Que dinheiro?

O Sr. José Italiano então disse que, quando ele comprara a fazenda S, Sebastião apenas o Geraldo ficara de fora mas, como depois mais duas irmãs se formaram também custeadas por ele, concluiu que o Geraldo tinha ficado no prejuízo, e que, agora, mandara avaliar a fazenda e, dividindo-a em doze partes, estava trazendo para o filho o que ele achava justo ser a parte dele.

Não é preciso dizer o quanto discutiram, pois meu marido não aceitava de jeito nenhum o presente

Meu sogro tentava convencê-lo, dizendo que investisse numa sociedade, abrisse uma firma, comprasse terras ou algum imóvel, mas meu marido não queria saber de conversa.

Uma manhã, após o café, Sr José Italiano saiu sem muita prosa .Chegou a hora do almoço e nada dele aparecer. Esperamos e esperamos, meu marido já estava preocupado achando que ele se perdera ou tivera algum mal súbito, quando ele chegou, numa camioneta, muito satisfeito da vida.

Perguntamos o que acontecera e ele respondeu :

--Pois eu estava fazendo negócio! E me trouxeram em casa quando eu disse que era seu pai!

--Mas o que o senhor andou aprontando, pai? perguntou meu marido

--Aprontei, sim!... Eu é que não ia voltar para casa com essa dinheirada!... Agora eu já comprei o que achei certo e pronto! Já está no seu nome e agora é só ir no cartório assinar!... Se você não gostar, azar! Faça depois o que quiser!...

--Mas o que o sr. fez, pai?

--Nada!... Nada demais!... Comprei uma chácara aquí dentro da cidade. Nas minhas prosas por aí, fui me informando, e, conversa daqui e conversa dali, me contaram dessa chácara, que o dono estava vendendo porque estava apertado. Hoje me levaram lá ver!... Gostei bastante!...

--Mas pai! Eu não tenho nem tempo nem cabeça para cuidar de chácara!

--Não faz mal!... Deixa lá... ela começa numa rua grande que já está aberta... deixa lá... não precisa fazer nada... está na mata fechada mas daqui uns anos a cidade chega lá... daí você loteia e vende os lotes... faça o que quiser, mas o lugar é bom... de futuro...

Bom, finalmente meu marido aceitou, acertaram tudo no cartório e, dias depois eles retornaram para União da Vitória.

A chácara ficou lá, onde íamos de vez em quando , meu marido, depois de alguns anos fez o loteamento, registrou as plantas, mas nada vendeu. Tudo continuava no mato cerrado.

Ele, em homenagem aos pais, deu ao loteamento o nome de JARDIM HORIZONTE, que era o nome da fazenda dos pais, onde ele nasceu...

Lá por volta de mil novecentos e sessenta e oito eu já estava lecionando no Colégio Estadual e na Escola Normal e envolvidíssima na assistência social, batalhando pela APMI (Associação de Proteção à Maternidade e à Infância) e tínhamos, na vila Urupês, um Clube de Mães que funcionava para tudo: palestras, vacinações, aulas de costura, consultas médicas e, aos domingos emprestávamos o recinto para a missa.

Nós, da APMI, éramos sempre convidadas e sempre algumas de nós se fazia presente nas missas para estar junto de nossos protegidos.

Numas dessas vezes, começou a me incomodar a grande afluência de pessoas e o espaço tão exíguo. Minha cabeça começou a me incomodar e eu me dizia :

--“Temos de dar um jeito numa igreja para essa gente! Aqui está pequeno demais!”

E uma idéia começou a se formar em minha cabeça... Nosso loteamento era Alí ao lado, muito próximo... e se déssemos um lote para construírem uma capela?.

Tal idéia não me deu mais sossego e fui, muito com jeito, tentar convencer meu marido. No princípio ele nem me dava resposta mas, quando viu que eu não dava trégua, começamos a brigar. Ele dizia :

--...e porque você resolveu que NÓS é que temos de dar um lote para a tal da capela que você inventou ? A cidade está cheia de madeireiros ricos, de fazendeiros cheios da grana!... porque NÓS é que temos de doar lote para a Igreja? Pode esquecer isso!...

Foi muito difícil, mas afinal, consegui, alegando que nós éramos abençoados com filhos sadios e que tudo ali nos fora dado pelo pai dele, e que não era tanto assim doar UM lote no Jardim Horizonte para tanta gente boa...

Bom, aí começou uma nova briga... Eu disse que queria escolher o lote... Meu marido disse que ele é quem escolheria.

Fomos até a planta e eu lhe mostrei onde queria a capela.

--Você ficou doida ? Um lote de esquina na avenida. Jorge Walter? O “filé mignon” do loteamento? Você não sabe que os lotes que dão para a avenida são os mais caros ?

--Claro que eu sei! Mas então onde é que você quer colocar a igreja ?

Ele me mostrou um lote no meio do loteamento.

--O que? Você vai dar um lote no meio do mato? O que que é isso? Nem pensar!... Até que se abram as ruas vai demorar anos para sair essa capela...

--E daí? Veja...Estou dando um lote de esquina, como você quer!...

--De jeito nenhum! Essa capela é para sair já, não para daqui a uns anos! Eu quero aquí... na esquina da Jorge Walter,, junto da Vila Urupês...

Afinal, depois de muitos vais e vens, ele concordou...

Fui logo levar a notícia para o sr. Bispo, Dom Eliseu Simões Mendes, nosso vizinho, que a recebeu com muita alegria.

Rapidamente a notícia se espalhou e o povo, muito feliz, orientados pelo padre que Dom Eliseu designou para ajudá-los, já se organizou em comissões para tratar de angariar dinheiro para construir a capela.

Passados uns dois meses, o grupo de paroquianos lá da Vila Urupês, nossos conhecidos, vieram muito solenes nos visitar, dizendo que queriam comprar mais uns dois lotes, porque não tinham espaço para fazerem as festas que precisavam para juntar dinheiro.

O Geraldo, pressionado pelas novas circunstâncias, mesmo não interessado em vender nada do loteamento, concordou, e vendeu-lhes, a preço mínimo e a longo prazo, dois lotes junto ao primeiro.

Nessa ocasião me passou pela cabeça perguntar-lhes quem seria o padroeiro ou padroeira da nova igrejinha. Perguntei-lhes se já haviam escolhido .Muito alegre, um deles respondeu :

--Ah já escolhemos, sim senhora!...É N. SRA. APARECIDA!

Foi um choque, tanto para mim quanto para meu marido..

É que N. Sra. Aparecida era a padroeira de minha sogra e, tanto, que meu marido ao nascer, foi batizado na fazenda com o nome de Geraldo Aparecida. Foi muito emocionante para nós, que nunca mencionáramos nada disso a ninguém, nem faláramos sobre nossa preferência por qualquer santo.

Meses mais tarde, fomos visitados pelo Sr. Bispo que nos disse ter mandado fazer um levantamento na região e que ali, onde queríamos, não seria possível erguer a capela.

Eu fiquei até sem fala e devo ter feito uma cara muito triste, pois em seguida Dom Eliseu começou a rir, dizendo:

--Calma, calma, dona Walkyria! Eu vim justamente para lhes dizer que ali não comporta uma capela e, sim, uma PARÓQUIA!

--Uma PARÓQUIA ? Santo Deus!!! Que beleza! E comecei a chorar de emoção.

--Pois é, dona Walkyria , e eu vim pedir a vocês que nos vendam mais lotes ali junto dos outros, porque agora, precisamos de espaço.

E nos compraram mais uns lotes, que formou, afinal, um quarto do quarteirão.

Logo depois viemos para Curitiba e daí meu marido resolveu abrir o loteamento e começou a vender os lotes, para podermos comprar uma casa aquí em Curitiba.

Demoramos anos para voltar lá e, só a seis anos atrás, que fui de carro com meu filho e netos, pedi a ele para irmos ate lá. Queria ver como estava a igrejinha.

Não conseguimos entrar. Estava tudo em obras, cheio de tapumes e colunas cobertas e homens trabalhando. Perguntei a um deles que estavam fazendo e ele me respondeu;

--Estamos erguendo a terceira igreja encima da segunda!

Fiquei olhando, intrigada com o tamanho da obra mas, afinal, partimos sem visitar a igreja.

Só agora, em dez de outubro de dois mil e seis , por ocasião da MINHA FESTA , quando recebi o título de Cidadã Honorária de Campo Mourão e que fomos de ônibus, meu marido, meus filhos, netos, parentes e amigos, até lá, é que resolvi ver como estava a igreja e contar, para todos os que estavam conosco, a história dela.

Foi mais uma das grandes emoções que passei nesse dia...

Primeiro, ver o porte majestoso da construção, com N. Sra. Aparecida lá encima do portal, depois o tamanho e a beleza da igreja por dentro.

Eu olhava tudo, estarrecida. Como ? Como daquela idéia modesta que eu tivera, de construírem uma capelinha, resultara em algo tão grandioso (guardadas as proporções do lugar, é claro)?

Eu estava engasgada de emoção e creio que meu marido também pois ele estava com os olhos marejados de lágrimas.

De repente o vigário apareceu. Vendo o ônibus e tanta gente descendo, resolveu vir conversar conosco e, quando eu contei da nossa surpresa com o tamanho da igreja e contei quem éramos, ele nos deu uma benção especial, conversou conosco , nos levou a ver a capela no subsolo e a sala dos milagres. Alí haviam mulheres lavando o chão, outras varrendo e o vigário nos disse que estavam preparando a igreja para a festa dali a dois dias (doze de outubro) que é o dia de N. Sra. Aparecida e que esperavam muita gente, muita gente, porque aquela igreja, a nossa igreja, no Jardim Horizonte de Campo Mourão, fôra elevada a SANTUÁRIO PARANAENSE DE NOSSA SENHORA APARECIDA.

Minha alegria era enorme, ao ver minha família conhecendo tudo e, por mais uma vez, agradeci a Deus por ter me usado como instrumento de sua vontade.

Minha sogra também, onde quer que esteja, deve estar feliz vendo que sua padroeira está dignamente instalada e que soubemos agradecer o presente que nos deram, homenageando sua santa de devoção...

...e que ela, N. Sra. Aparecida, sempre proteja minha família...

AMÉM.

Curitiba, 03 de novembro de 2006.

Walkyria Gaertner Boz

sábado, março 24, 2007

A História do Queijo


A História do Queijo
ou
Será que ainda dá para se ter esperança?


Pois é...

Nosso “mundinho” está mesmo de pernas para o ar...

A inversão de valores é tal, que às vezes me sinto atordoada... Como é que conseguimos deixar as coisas chegarem nesse pé?

Eu fico me questionando se tudo o que está acontecendo é culpa apenas da minha geração ou se é resultado de um “efeito cascata” que veio se acumulando pelas gerações e séculos passados, estourando tudo agora, nesses últimos cinqüenta anos...

Sim, porque já no meu tempo de menina aconteciam coisas que eu não entendia, mas elas foram ficando cada vez piores, cada vez mais escabrosas.

O que antes, no meu mundo, era rotina (caráter, honestidade, solidariedade) agora virou exceção! E o que era exceção (violência, safadeza, drogas, juventude desmotivada, balas perdidas) agora é a rotina de nossa vida!...

O povo vive sob constante tensão, com medo de tudo e já percebo um clima de depressão, de conformismo coletivo que NÃO PODE acontecer, e continuar, nem pensar!

Nós precisamos sacudir esse marasmo, esse medo, essa indiferença doente que faz com que nos fechemos cada vez mais em nossas casas cercadas de grades por todos os lados e fazer alguma coisa! Nós temos que tentar modificar isso, e não deixar que tudo a nossa volta continue se deteriorando até que sejamos “engolidos” por todo esse horror.

Cobrar, e cobrar muito do governo e fazer também a nossa parte.

Se cada um de nós fizer alguma coisa, aos poucos conseguiremos melhorar esse quadro tão tenebroso em que vivemos...

É por isso que conto agora aqui um caso que deveria ser rotina e, no entanto, é exceção.

Nas vésperas do Natal do ano passado, meu marido e eu fomos à feira livre, comprar uns ingredientes, frutas e verduras frescas para meus quitutes de Natal.

Paramos na barraca dos queijos e ele comprou uma peça de queijo prato de, mais ou menos, uns três quilos. Saímos dali, fizemos outras compras e, numa outra barraca, a de secos e molhados (será que ainda hoje se chama assim para a que vende castanhas, nozes, azeitonas, ameixas e outros mais?), que estava apinhada de fregueses. Descansamos nossas sacolas no chão e ficamos aguardando nossa vez.

O movimento era grande, especialmente devido à época. Em dado momento, a pessoa que estava à nossa frente – uma senhora – nos pediu licença para sair, pois já fora atendida. Demos espaço para ela, que juntou do chão suas sacolas, nos desejou Feliz Natal e saiu.

O que ela não percebeu é que, junto com as sacolas dela, levara a nossa, onde estava o queijo...

Meu marido só percebeu a falta quando nós também pedimos licença para sair e não encontrou mais a sacola. Ficou muito frustrado e, enquanto voltávamos para o carro, ele ia passando nas barracas de queijo, perguntando se alguém não devolvera ali uma peça de queijo prato assim, assim. Vã esperança...

Eu fiquei com pena do desconsolo dele — imagine... Ele ainda é do tempo em que as exceções eram rotina... — e ia lhe dizendo que era inútil tentar.

A feira estava repleta, gente demais passando. Eu acreditava mesmo que a senhora que pegou o queijo nem percebera que o fizera e, por certo, só veria o engano em casa.

Desconsolado, meu marido quis voltar onde comprara o queijo, para comprar outro igual, e lá fomos nós. Ele contou o caso para a vendedora que ficou penalizada e ele também lhe perguntou se ninguém viera devolver um queijo ali. Vã esperança. Compramos outro e voltamos para casa.

Eu ainda ria, dizendo que a pessoa ia ficar feliz com o presente inesperado de Natal, porque, por mais sem intenção que tivesse feito, não teria como devolver e nem descobrir o verdadeiro dono.

Depois do Natal fomos para a praia, onde ficamos até o final de janeiro. No último sábado do mês, meu marido voltou à feira e tornou à barraca do queijo. Estava pagando a compra quando a vendedora, que o atendera um mês antes, lhe perguntou se não tinha sido ele quem lhe perguntara a respeito de um queijo perdido.

Meu marido confirmou e ela lhe disse: “Pois naquele dia vieram perguntar aqui e eu disse que sim, que uma pessoa andava procurando, e que tinha sim sido vendido aqui mesmo. A pessoa devolveu o queijo. Olhe, vou lhe dar outro igual e da mesma marca!!!”

Meu marido pegou o queijo tão surpreso que nem acreditava e mal conseguia falar. Chegou em casa animado, contando o caso. Eu fiquei boquiaberta, encantada, emocionada, perplexa, maravilhada!

Será que ainda dá para se ter esperança?

Walkyria Gaertner Boz
23/03/2007

domingo, março 04, 2007

Dêem Árvores ao Brasil!

Imagem: http://www.artefotos.fot.br

Ultimamente os noticiários da televisão e dos jornais tem se ocupado exaustivamente em, além das tragédias citadinas do dia a dia, que já são suficientes para nos perturbar a pouca paz que desfrutamos, insistir num alerta ecológico sobre cataclismas: degelos, furacões, tsunamis, inundações, ondas de calor, desertificação, enfim , a revolta da natureza às investidas predatórias da humanidade.

Toda essa preocupação da mídia é muito louvável no sentido de orientar e educar a população no respeito à natureza, mas há que se cuidar para não se transformar tal orientação numa fonte de pânico permanente, especialmente para os jovens.

Que mundo estamos deixando para eles?

É importante que se oriente, mas que também se mostre que alguma providencia está sendo tomada e o que tem sido feito para minimizar as catástrofes inevitáveis que vem por aí, o trabalho dos cientistas e do setor responsável por essa área dos governos mundiais, para que eles vejam que algo está sendo feito pela preservação da humanidade.

Esse é um tema antigo, já defendido há muito por ambientalistas de renome que, esgotados de tanto alertar, roucos de tanto gritar por ações verdadeiramente eficazes, vêem agora suas predições se aproximando assustadoras e implacáveis.

Vendo todo esse clima se instalando a minha volta, lembrei-me que, cinqüenta anos atrás, quando eu era uma jovem estudante, no Rio de Janeiro, então Capital Federal, nos idos de setembro de 1956, participei de um concurso promovido pelo DIÁRIO CARIOCA, que tinha Danton Jobim como redator chefe (edição 8730) e que se intitulava: “DÊEM ÁRVORES AO BRASIL”.

Estudava num modesto colégio municipal, o Colégio Municipal Paulo de Frontin, e consegui ficar em 2º. lugar, entre o super colégio da Zona Sul, o Anglo Americano (lo. lugar) e o afamado e poderoso Colégio Dom Pedro II (3º. Lugar).

A festa no meu colégio foi grande, pois conseguimos aparecer em meio a dois grandes bastiões da educação daqueles tempos, e recebi muitas homenagens dos colegas e professores.
Lembrando-me de tudo isso, especialmente do tema do concurso, agora tão em evidência, fui procurar o recorte do jornal, guardado por mim há tantos anos, e surpreendeu-me até o quanto ele está atual, como o alerta e a preocupação são os mesmos e como são os mesmos também o descaso e a indiferença...

Cinqüenta anos se passaram... e o que se tem feito a não ser destruir e devastar a natureza?

Vou transcrever aqui a íntegra do texto que foi publicada pelo DIÁRIO CARIOCA, cujo recorte guardo até hoje com muito zelo, mas também com muita tristeza com a constatação que a minha geração, apesar de já estar ciente do problema, nada fez para reverter a situação que poderia já estar bem diferente. Perderam-se estes cinqüenta anos... que lástima!...

E agora?...E agora?...

Imagem: http://fcbs.org

CONCURSO “DÊEM ÁRVORES AO BRASIL”
(1956)
Walkyria Ricci Gaertner
2º. Prêmio da 2ª. Série colegial
Colégio Municipal Paulo de Frontin

TEMA: “A importância das florestas”

Um país rico em florestas é um país milionário, ao menos potencialmente.

O mundo não pode prescindir delas. Voltando-nos para o passado, veremos que as grandes jazidas atuais de carvão são as causadas pelo soterramento de florestas ante-diluvianas. Da mesma forma o petróleo, tão necessário à economia mundial, é extraído de regiões férteis da pré-história.


São as florestas que saneiam a atmosfera, e aí está sua maior utilidade ao homem. Tenhamos terras insalubres e lá estarão elas a purificar o ar, livrando-o dos gases venenosos.


O Brasil, desde a sua descoberta, maravilhou os europeus pela profusão e variedade de sua vegetação, e época houve, não muito distante, que sua maior produção, sua principal fonte de divisas estava na árvore da borracha, que medra extensivamente por toda a região Norte do país.


O estado do Maranhão, ainda hoje, tem na extração do côco babaçu sua maior fonte de riquezas, e já foi provado que a casca desse côco é um excelente carvão vegetal, e que só com os babaçuais da Ilha do Bananal se poderiam alimentar todas as estradas de ferro do mundo, por cem anos sucessivos.


E isso são pequenos exemplos do que representam as florestas para a economia brasileira ! É flagrante e vital, constituem inesgotável fonte de divisas.


Explorando e fomentando o reflorestamento, estaremos garantindo à nossa terra um lugar de destaque na economia mundial.


O Brasil precisa das florestas e nós, brasileiros, principalmente nós, estudantes, precisamos conhecer esse problema e dar a ele todo o apreço e atenção, pois sabemos que até o nome de nossa terra é devido às nossas árvores, como muito bem conta o poeta CASSIANO RICARDO:

...................................................................
“Mas, como houvesse abundância
De certa madeira cor de sangue, cor de brasa
E como o fogo da manhã selvagem
Fosse um brasido no carvão noturno da paisagem
E como a terra fosse de árvores vermelhas
E se houvesse mostrado assaz gentil
Deram-lhe o nome de BRASIL

BRASIL cheio de graça!
BRASIL, cheio de pássaros!
BRASIL, cheio de luz!”

terça-feira, agosto 08, 2006

Fim de tarde


Não me lembro mais que época do ano era, só sei que o crepúsculo começava a descer sobre Campo Mourão e eu tinha muita roupa no varal que, provavelmente já estava seca. Eu me preparava para ir para o Colégio Estadual e, ao ver a roupa lá fora, apressei-me a ir recolhê-la, mesmo porque se deixavam as roupas o mínimo de tempo na corda. O sol e o vento se incumbiam de uma secagem rápida, mas a exposição demorada permitia que a permanente poeira vermelha deixasse as roupas “rosadas” e encardidas, e a rua onde morávamos era uma das principais, com intenso movimento de veículos.

Eu retirava apressada as peças e recolhia os grampos quando, de repente, vi um avião, desses pequenos, monomotor, passar alto sobre a casa. Olhei para cima, pouco interessada, pois isso era muito comum naquele tempo. O tráfego de pequenos aviões era intenso já que era o meio mais rápido de se chegar aos centros maiores do estado e muito usado por pessoas que iam atrás de recursos médicos ou pelos fazendeiros da região que tinham pressa em resolver seus problemas e não queriam se expor às brincadeiras do tempo e às incertezas das estradas.

Continuei meu trabalho e vi novamente o avião passar.

Voltava já para casa, carregada de roupas no cesto e, no momento que entrava, ouvi de novo o avião passar no sentido contrário. Parei e olhei o céu.

Campo Mourão está num planalto e, àquela hora, o sol descia na linha do horizonte.

O céu estava ainda muito claro e cheio de sol, mas a terra estava já às escuras.

Estremeci. O avião passava de novo, em sentido contrario. Alguma coisa estava errada... Àquela hora um avião ficar para lá e para cá... Alguma coisa estava errada...

Joguei o cesto de roupas sobre a mesa e saí correndo para o telefone.

Sabia de cor o telefone da estação de rádio da cidade, a Rádio Colméia, e conhecia alguns dos seus funcionários, pois tinha um programa semanal de orientação às mães e gestantes sobre a maneira de tratar recém nascidos, avisando-as de sintomas de doenças, passando-lhes receitas e as incentivando a vir com as crianças para consultas periódicas - eu também era voluntária da Associação de Proteção à Maternidade e à Infância -.

Perguntei à pessoa que me atendeu quem era que estava no microfone e me informaram que era o Sr. Adinor Cordeiro. Pedi que o chamassem com urgência, que eu precisava lhe falar.

Ele me atendeu prontamente. Eu estava à janela e, novamente, o avião passava alto sobre minha casa. Nessas alturas eu já tinha certeza que algo muito sério se passava.

Passei minha preocupação para o Sr. Adinor, que me respondeu assustado:

“Mas não é possível, dona Walkyria, o sol ainda está alto!”

“Olhe bem daí, Sr. Adinor! Aqui em baixo já está escuro! Alguém está em perigo! Corra dar o alerta antes que seja tarde!”

“Eu custo a acreditar, mas vou observar! A senhora fique na escuta.!.. Caso se confirme , é prá já!...”

Eu larguei do telefone, peguei o radinho de pilha e continuei na janela, olhando o céu, o coração aos saltos. Novamente o avião passou...

Minhas crianças, assustadas com a minha aflição, me rodeavam inquietas.

Imediatamente o rádio começou:

“Atenção! Atenção! Há um avião sobre a cidade me parecendo perdido! Dirijam-se ao campo de aviação! Dirijam-se ao campo de aviação!”

Ao mesmo tempo falava com o piloto:

“Atenção piloto do avião! Se pode me ouvir, balance as asas! Se pode me ouvir, balance as asas!”

Arrepiada, assisti o avião responder ao chamado, balançando as asas.

Nessas alturas, o movimento de carros, jipes e caminhões já era intenso na minha rua, dirigindo-se ao aeroporto. Eu rezava, aflita, agarrada ao rádio.

O locutor continuava:

“Você está sobrevoando Campo Mourão! Tenha calma e atenda minhas orientações! O campo de pouso está na direção de sua cauda! Retorne e continue na mesma direção, em cinco minutos estará sobre o campo. O povo já está indo em seu socorro. Tenha calma!”

Os carros passavam zunindo, já de faróis acesos, sob um pó intenso, à frente de minha casa. Eu não conseguia sair da janela e nem me dava conta que já estava em cima do meu horário de ir para meu trabalho.

Minhas crianças e a empregada disputavam a janela comigo, alvoroçadas pelo movimento inusitado.

Atendendo a orientação, assisti o avião fazer a volta e tomar o rumo indicado. Eu, cá de baixo falava com ele:

“Isso, rapaz! Vamos! Continue! Você vai bem! Vamos! Isso! Está quase chegando! Vamos! Vamos!”

Eu já havia assistido outras vezes algo semelhante e inclusive já tinha participado com meu marido e nosso jipe numa dessas aventuras de salvamento.

O aeroporto (campo de aviação) era rústico e sem recursos. Não tinha iluminação e os pousos eram freqüentes, mas apenas durante o dia. Ao entardecer, se acontecesse, os pilotos pediam socorro pelo rádio para nossa emissora e o locutor largava o alerta. O povo todo participava e era uma das coisas mais comoventes de se ver a solidariedade que nos irmanava nessas horas.

Os veículos se postavam nas laterais do campo de aviação, formando duas linhas paralelas e acendiam o farol dos carros. Essa iluminação rudimentar já salvara muitas vidas. Era isso que estavam fazendo nesse momento

Quando vi que ele enveredava pelo rumo certo, me acalmei, dei graças a Deus, fechei a janela e fui terminar de me aprontar rapidamente para ir ao Colégio, onde cheguei esbaforida e atrasada.

Dei minhas aulas e nada comentei com ninguém, voltando para casa no horário costumeiro, já encontrando as crianças dormindo.

No dia seguinte o telefone não parava de tocar, todos queriam saber como eu percebera o acidente iminente e me cumprimentavam pela rapidez com que eu providenciara a ação.

Passei dias às voltas com o episódio, onde quer que fosse era cumprimentada. No colégio, os alunos e professores me faziam repetir o caso.

Fiquei sabendo depois que o piloto era muito conhecido na região e que estava realmente sem rádio. Pousara com sucesso e, ao sair do avião estava chorando de emoção, abraçando todos os que correram em seu socorro e que depois, fizera questão de ir à Radio Colméia, onde participou de uma entrevista com o Sr. Adinor Cordeiro que o inteirou de como tudo tinha acontecido. Foi então que meu nome foi citado e o piloto, muito comovido, me fez um agradecimento.

Como disse antes, os comentários duraram dias e eu estava sempre a ter de repetir a história, a que eu acrescentava que me espantava tanta festa, já que não fizera mais do que qualquer um faria numa hora dessas. O único mérito e diferença é que, e eu me sentia gratificada por isto, eu estava no lugar certo, na hora certa, com certeza não por acaso...

quarta-feira, julho 19, 2006

Sinal dos Tempos



Da historia do mundo que se tem notícia,-- um tanto por tradição escrita e muito mais por tradição oral—e nisso já se pode arredondar para perto de seis mil anos, sempre e sempre a mulher foi considerada um ser inferior, tratada e maltratada como serva, vendida pelos pais e submetida a todos os serviços domésticos, sem direito a reclamar e a se insurgir, e, se isso acontecia era severamente castigada e até morta, para dar exemplo às outras mulheres de humildade e subserviência.

As poucas que conseguiram sobressair, aprendendo a ler ou demonstrando inteligência em atitudes de rebeldia ou dando palpites acertados, assustavam os homens que, não acostumados a ter de aceitar o fenômeno, se sentiam diminuídos e motivo da chacota dos seus pares, por conviver e sustentar uma mulher que eles não conseguiam “manter em seu lugar”

Essa história é do conhecimento de todos e se perpetuou pelos séculos até há bem pouco tempo. As atitudes de rebeldia foram aumentando e, vagarosamente, elas foram ganhando espaço e mantendo essa conquista, assegurando silenciosamente seu direito a alforria.

Foram seis mil anos de sofrimento os quais, honra seja feita, talvez os homens não sejam tão culpados já que essa tradição lhes foi ensinada desde os primórdios dos tempos e também porque, ora essa, lhes era muito conveniente essa cultura machista que lhes proporcionava todas as regalias.

O século XX foi realmente marcado por incríveis mudanças e uma explosão de progresso tão acelerado que, para os mais antigos, é custoso admitir que tanta coisa aconteceu em tão pequeno espaço de tempo.

Nestes últimos cinqüenta anos o percentual de mulheres que freqüenta escola é enorme, que conclui uma faculdade e mostra brilhantismo numa carreira que, antes, era restrita apenas aos homens já é deveras significativo, e nem é preciso citar os postos que, na atualidade , já exercem com competência , conquistando assim o respeito e até a admiração dos homens.

Muita coisa ruim ainda acontece, basta que se leiam os jornais, mas elas continuam lutando, silenciosamente, conquistando com valentia o seu lugar, não atrás do seu companheiro, mas a seu lado, como sempre deveria ter sido.

Há milhares de histórias que comprovam essas atitudes libertárias, mas todo esse preâmbulo é para lhes contar a história de DOROTÉIA , alguém que, antes da segunda guerra mundial, contribuiu para que as coisas mudassem, sendo olhada com respeito por tantas outras que não tiveram a sua coragem.

DOROTÉIA

Dorotéia era uma moça bonita que não tivera acesso à escola. Mal sabia escrever o nome. Muito cedo casou-se e teve quatro filhos, que ela criava com todo o zelo .Era excelente dona de casa, e grande quituteira. Por ajudar sempre as vizinhas com seus guisados, não tardou a se tornar conhecida no bairro e, nas festas da igreja, sua barraca era das mais concorridas.

Há que se dizer que Dorotéia nunca teve, de parte do marido, a liberdade de usar do dinheiro deles como queria. Tinha sempre de pedir ao marido e explicar direitinho o que iria fazer com o que ele lhe dava, e que era mesquinhamente controlado.

Ela odiava tal situação e já vendia seus quitutes para ter algum seu, com o que comprava mimos para as crianças, alguma roupa e até calçados. Para ela ou os filhos.
Os anos passavam e, aparentemente, era um casal muito feliz, porque ela nada contava.
Um ano, por ocasião das festas da igreja, que já se tornaram tradição na cidade e a afluência já era muito grande, o pároco resolveu aceder ao pedido das senhoras e permitir que se realizasse um grande baile no último dia da festa.

Foi um alvoroço geral! As senhoras, entusiasmadas, combinavam como enfeitariam o salão paroquial e calculavam os gastos com doces e bebidas para o dia aprazado. As costureiras enlouqueceram...não tinham mãos a medir de tanto serviço!

Dorotéia conversou com o marido, que gostava das festas e achou boa a idéia do baile. Ela, então, lhe pediu dinheiro para comprar um tecido bonito, queria também um vestido novo.

A casa quase caiu...
Ele ficou uma fera!
Vestido novo prá que? Os que ela tinha estavam muito bons, ora essa!
Não e não!!!

Dorotéia nada respondeu, mas a revolta dela chegou ao pico.

Ela não vivia a ajudá-lo com seus quitutes? Ela não economizava tudo que podia fazendo até a roupa dos filhos em casa? Ela não cuidava da casa e de tudo sempre com critério e obediência? Será que não merecia um vestido novo para a festa? Era sempre não e não...

O dia da festa se aproximava, as amigas falavam entusiasmadas de seus trajes e ela ficava calada e triste.

Um dia, depois de uma noite insone, levantou-se furiosa. Ela sabia onde o marido guardava o dinheiro (naquele tempo ainda não existiam bancos como hoje), e se apoderou de uma quantia, o suficiente para comprar o tecido e pagar o feitio do traje. Ela hesitara muito, fizera as contas mil vezes, seu coração quase lhe saia pela boca, mas ela resolveu que merecia e fim. Depois, com certeza, seu marido se acalmaria.

E no dia da festa, depois de trabalhar muito na quermesse, Dorotéia foi para casa e se aprimorou na aprontação. Meu Deus! Como estava feliz, olhando-se no espelho, como se achou linda! Até os filhos a rodeavam, admirando-a.

José, o marido, parecia não ter percebido nada, não fez comentário algum e lá se foram para a festa, que foi maravilhosa e foi assunto para meses das senhoras organizadoras.

Dorotéia estava radiante. Tudo dera certo. Só estranhava que o marido nada comentara sobre seu vestido. Passados alguns dias não resistiu e resolveu perguntar-lhe se gostara do vestido novo.

“Que vestido?”

“Ora, o vestido novo que usei na festa! Você gostou?”

“Vestido novo? Como vestido novo? Eu não lhe disse que não precisava de vestido novo? Como você fez isso? Com que dinheiro?

Nessas altura, José já esbravejava...

Dorotéia nunca vira o marido tão enfurecido. Estava realmente assustada...
Ela tentou acalmá-lo falando devagar e pedindo-lhe que esperasse ela contar.
Qual nada. Quando soube que ela pegara o “seu” dinheiro sem autorização, avançou para ela descontrolado.

“Você fez isso? Você fez isso?”

E, sem que Dorotéia entendesse bem o porque de tanta fúria, ele avançou para ela, esbofeteando-a várias vezes. Dorotéia, aturdida, gritava de dor, estupefata diante de tanta violência.

Quando ele parou, ela foi até o espelho do quarto.

Em silêncio via o sangue escorrer de sua boca, manchando sua blusa. José também parecia desnorteado com o que fizera, olhando para a mulher ensangüentada.

Dorotéia olhou para o marido através do espelho e, em silêncio olhava o sangue pingar, manchando sua blusa.

De repente , de costas para ele e pelo espelho, lhe disse pausadamente:

“José , vê todo esse sangue? É seu, José...É seu!!! Você acaba de morrer...Você se matou, José!!! Você se matou!!!”

Desse dia em diante nunca mais lhe dirigiu a palavra. Nunca mais lhe pediu ou perguntou nada.

Foi trabalhar de cantineira num colégio e dali tirou seu sustento e dos filhos.
José andou como uma alma penada pela casa por uns tempos, imaginando que a raiva de Dorotéia passaria e, como ela não passasse, acabou saindo de casa, mas ficando por perto, dizendo que tinha de ficar perto dos filhos, sempre vigiando a mulher....

E Dorotéia ? A quem perguntasse, ela dizia:

“Eu? Sou viúva!!”

quinta-feira, junho 29, 2006

História de estrada


Chovia muito fazia dias... As estradas estavam intransitáveis e meu marido olhava pela vidraça, preocupado. Precisava estar em Curitiba para uma reunião importante, queria nos levar com ele, mas vacilava em decidir a saída. O Junior acabara de fazer três anos, Cristina não tinha um ano e eu estava de sete meses, esperando a Cláudia. A viagem era longa, a estrada até Maringá não tinha asfalto, eu também queria ir junto por que não gostava de ficar sozinha, e a demora dele era sempre de muitos dias. A chuva não parava... e as estradas estavam muito ruins.Finalmente, à tardinha, parou de chover e um sol muito preguiçoso clareou o horizonte, prometendo um dia seguinte sem chuva e Geraldo se decidiu: “Vamos pegar a estrada amanhã bem cedo!”

Eu me apressei a terminar de arrumar as malas. Alegrava-me a idéia de sair um pouco e, na vinda para Curitiba passávamos sempre por Ponta Grossa, onde eu tinha tios e primos, e estar um pouco com a minha gente era muito reconfortante.

Estávamos em Campo Mourão há dois anos e sentía-me isolada do mundo. Vivia num casarão feio e pintado de verde folha por dentro, o que o deixava com um aspecto triste, com um enorme telhado saindo da porta da cozinha e dando acesso a mais quatro quartos – que serviam de depósito – e dando também cobertura para a garagem e ao grande pátio onde ficava o tanque de lavar roupa e um velho e enorme forno de tijolos, que para mim nunca teria utilidade, pois não sabia lidar com ele e não tinha intenção de fazer pão em casa.

Saímos as quatro da manhã, pois meu marido previa problemas na estrada. Acomodamos as duas crianças dormindo no banco de trás e partimos, eu rezando para que fizéssemos uma viagem tranqüila, pois já estava bem pesadona e Cristina, que ainda não andava, passava, quando acordada, agarrada comigo e passando por cima de mim. Junior já ficava atento à estrada, atrás do pai, meio como que dirigindo junto.

Tínhamos uma Simca Chambord há pouco tempo, um carro completamente inadequado para aquela região de muita lama no tempo de chuva e muito pó no tempo de sol, mas era um sonho que realizáramos. Tivéramos primeiro um “jeep”, (que eu achava lindo), de capota de aço, e que enfrentava qualquer tempo, mas creio que meu marido tinha dó de me ver sempre grávida e sacolejando na dureza dos assentos do “jeep” e passou primeiro para uma valente Rural Willis e, mais tarde, apareceu com a Simca, linda, bege e cinza, com um estofamento macio e que parecia nos pedir, quando na garagem, que saíssemos estrada afora.

Estava muito escuro ainda quando saímos e fomos muito bem por mais de uma hora.A Simca se comportava com galhardia, mesmo dando umas escorregadas.

Creio que estávamos talvez a menos de uma hora de Maringá (onde o asfalto – ainda em construção – nos esperava) quando, no lusco-fusco matinal encontramos a fila de caminhões parados. Dali para frente nada passava, o barro transformara o leito da estrada num mingau mole e escorregadio, onde os caminhões não se aventuravam a atravessar com suas cargas pesadas.

Tive vontade de chorar. Logo outro caminhão encostou atrás de nós, o que significava que estávamos sem saída, e teríamos que aguardar ali até podermos sair.Em seguida mais um e mais outro...

Não era a primeira vez que isso nos acontecia e eu já era exímia viajante de estradas ruins. Andava sempre prevenida. Aos meus pés estava uma sacola com água filtrada para bebermos, outra garrafa com água para lavar as mãos das crianças antes de lhes dar algo para comer, uma toalha pequena para limpá-los, uma outra toalha para enxugá-los, e mais bananas, maçãs, bolachas, chocolates e pirulitos para distrair as crianças. Eles ainda dormiam. Eu nada falava porque sabia que Geraldo estava nervoso e fumava sem parar.Estava aflita. Quanto tempo ficaríamos ali? No despertar da manhã ouvia-se já, aqui e ali, o canto de um pássaro, depois outro...Eu já começava a me arrepender por ter vindo, expondo as crianças aquele desconforto e sabendo que trazia a meu marido muita preocupação devido ao meu estado, e já sentia vontade de ir ao banheiro...

Olhei para fora.Estávamos afundados na lama, não sei se daria para abrir a porta do carro, e mesmo se desse, iria me enlamear inteira até alcançar uma moita onde pudesse me esconder—isso também já aprendera a fazer nas minhas muitas idas e vindas pelas estradas—e via que, dum jeito ou de outro, teria que tentar, o mais discretamente possível.

O dia começava a clarear e se via do lado de fora do carro o movimento dos caminhoneiros, aborrecidos e impotentes, que talvez já estivessem ali desde a tarde anterior, cansados e esfaimados, aguardando a melhora do tempo.

Tentei dormir um pouco. Nada havia a fazer a não ser esperar, e meio adormeci, ouvindo o som da conversa e das risadas dos homens que tentavam fazer o tempo passar, conversando e fumando.

O dia amanheceu finalmente e um sol lavado e claro surgiu vitorioso. Eu estava cansada de estar sentada. Doíam-me as costas e as crianças acordaram irrequietas,

Dei leite com Nescau para o Jr e a mamadeira para a Cris – eu levava também uma garrafa térmica com café e outra com leite – e fizemos o nosso café da manhã o melhor que pudemos. As crianças não se aquietavam, o Jr queria sair para fazer xixi e não era possível, estávamos completamente atolados.

O dia avançava e o desconforto aumentava. Eu também já não agüentava mais de vontade de ir ao banheiro, mas procurava sossegar por que não havia como, mas estava muito difícil.

Os caminhoneiros passavam olhando para nós e eu sentia receio. Eles estavam sujos e barbudos, lembravam grosseiros malfeitores, não sofridos trabalhadores.

Passaram para cá, depois para lá, iam e vinham. De repente notei que o bando aumentou em nossa roda e meu coração disparou. Achei que iam nos assaltar e me abracei às crianças.Eles falavam entre si e nos olhavam.Meu medo aumentava.As crianças não se aquietavam e eu tentava faze-los se calar, preocupada em não irritar mais meu marido.

De repente um deles se apoiou na capota do carro e, pondo a cabeça a meio para dentro da janela, do lado do motorista disse;

“Òi,doto, nóis tamo pensando em tirá ôces daí.Nóis tamo entalado memo e a coisa aqui vai demora.Não dá pra vê sua patroa e as criança nessa situação”

Geraldo, nervoso, perguntou como fariam isso e acho que não podia mesmo imaginar como seria.

O homem respondeu num sorriso barbudo:

“Se o senhô deixá, nóis sabe como fazê!”

Lógico que Geraldo consentiu. Qualquer coisa era melhor que aquela inanição, e disse para o homem que estávamos por conta deles.

A partir daí, assisti a um dos momentos mais espantosos de minha vida.

Uns vinte homens, aqueles sujos, barbudos e mal-encarados envolveram o carro e, ao comando de um deles, ergueram – LITERALMENTE – ergueram a Simca conosco e nossa bagagem dentro (eu me mexia, observando-os, apavorada vendo o carro subir) e, atendendo às ordens de um deles, iam tirando erguido o carro do atoleiro. Era indescritível o que eu via e meus olhos eram pequenos para registrar aquela imagem maravilhosa!

Eu estava apavorada sentindo-me erguida daquela maneira.E se eles não agüentassem o peso e o carro despencasse? Nós, as malas e o carro éramos muita coisa para eles!

O carro balançava para cá e para lá, eu estava assustadíssima e nem a voz me saía para pedir que parassem.Se eu tomasse aquele tombo poderia entrar em trabalho de parto ali mesmo, e, se tudo já estava difícil, como ficaria então? Mas a voz não me saía. Eu continuava com os olhos arregalados, entre maravilhada e petrificada de terror, vendo as coisas acontecendo ao meu lado, agarrada às crianças. Junior acompanhava tudo quietinho, mas Cristina choramingava, assustada com o movimento à nossa volta.

Eles iam gritando “Eia, eia!“ e iam levando o carro para a outra pista da estrada, que estava livre. Assentaram o carro na trilha oposta e, enquanto um ajudava, sinalizando por onde o Geraldo devia levar o carro, uns cinco deles escoravam o carro com as mãos, apoiando os pés no barranco para não cairmos na valeta, enquanto outro tanto empurrava atrás, já que a Simca teimava em não ficar na trilha, roncando e seguindo atravessada, mas ia indo!!!

Os homens continuavam gritando e, animados com o sucesso riam e troçavam um com outro

- “Vamo, seus frouxo! Cadê esses muque? Empurra cambada!!!”

Os outros motoristas, que sobraram na empreitada, riam e batiam palmas, incitando os colegas a continuarem o trabalho. Meu coração parecia que ia saltar pela boca! Eu não acreditava no que estava vendo!

Geraldo suava, tentando dominar o volante e acompanhar o comando do caminhoneiro, e o carro ia indo !!!O carro ia indo, passando pelos outros caminhões parados na outra pista.O carro ia indo!...

Não sei quanto tempo durou a façanha, mas, de repente, fomos erguidos mais alto novamente e estávamos no lado certo da estrada e no seco, vendo a estrada limpa a nossa frente!´

Céus!!! Eles conseguiram!!! Como fora possível isso? Alguém acreditaria se eu contasse?

Olhei para trás. Os homens sujos, barbudos e mal-encarados estavam ali, atrás do carro, rindo, se abraçando, dando “hurras” de contentamento, muito mais sujos que antes, pois mal se lhes enxergava os olhos, completamente embarrados e cansados pelo enorme esforço, mas vencedores! Haviam conseguido...

Meu marido desceu do carro e abraçou cada um deles, agradecendo-lhes a solidariedade e a atitude generosa, e voltou para o carro suado e sujo de barro, mas feliz, podíamos seguir viagem!

Eu chorava de alívio e de gratidão, envergonhada de ter tido medo deles em algum momento, sem saber o que dizer de emoção e alívio.

E na estrada, tão lamacentos quanto ela, ficaram aqueles homens, rindo e acenando para nós, que também lhes acenávamos, enquanto o carro sumia na estrada ensolarada.............,

Isto aconteceu em 1963.....

Curitiba, 25 de abril de 2004

Dedico esta página, com todo o meu respeito, aos CAMINHONEIROS DO BRASIL que, no PARANÀ, entre março e abril de 2004, se sujeitaram a permanecer enfileirados por mais de 90 quilômetros para descarregar no porto de PARANAGUÁ.

1982 - Tempo de Copa - 2006


Sempre gostei muito de futebol. Apesar de ser menina e não ser uma atividade muito afeita às mulheres, ainda sou de um tempo em que a meninada brincava nas ruas e calçadas e os brinquedos eram poucos. A bola, então, era um dos principais divertimentos e, muitas vezes ficávamos tempo a observar as “peladas” da gurizada em meio a maior algazarra e, não raro, éramos chamadas para atuar na trave, como goleiras — às vezes faltava um menino e nós, meninas, só prestávamos para ficar no gol, nada mais.

Não havia ainda televisão e o rádio dominava soberano as tardes de domingo e o carioca já era, como até agora, inteiramente fanatizado pelos seus times, e, ao se passar pelas ruas, só se ouvia a narração vibrante dos locutores, em vários campos de futebol, irradiando os vários jogos da tarde.

Era o futebol para mim, portanto, algo que fazia parte da minha vivência e cultura, mesmo não tendo na família ninguém que jogasse ou fizesse parte de algum time.

Minha vinda para o sul me fez a vida mais pacata e tranqüila, meus interesses se voltaram para a minha família e meu trabalho, mas, com o advento da televisão, gostava de assistir às partidas mais acirradas dos campeonatos. E sempre vibrava muito, o que surpreendia meus filhos, mas me sentia feliz.

Foi assim que, com o passar dos anos, e por infaustos acontecimentos, me encontrava em Los Angeles em junho de 1982. Eu lá estava desde março, atendendo minha mãe doente e, como ela tivesse uma leve recuperação, resolvera voltar para casa.

Eu nada entendia de inglês e acompanhava muito mal os noticiários, sujeitando-me às notícias que minha irmã ou meus sobrinhos me passavam. Eu sabia que estava acontecendo a COPA na Espanha e meus sobrinhos, para me agradar, tentavam me passar as noticias sobre o evento, mas eu não me sentia satisfeita. Como era possível ali ninguém se interessar por futebol e não se ver a transmissão de nenhum jogo? Eu estava realmente num outro mundo... E louca por voltar!!!!!!

Minha irmã e meus sobrinhos me levaram muito cedo ao aeroporto, era o dia 17 de junho e Paulo César me disse que soubera que o Brasil ia jogar com a Rússia naquele dia, mas não sabia bem a hora. Fizemos cálculos e presumimos que a partida estaria acontecendo enquanto estivéssemos no aeroporto e, ao lá chegar, mesmo admirando o fantástico mundo que se apresentava ao meu redor, de gente de todos os lugares do mundo, chegando, circulando e saindo, nos trajes mais extravagantes, uma multidão apressada e se expressando nas mais diferentes línguas e gestos, o que já por si só seria um espetáculo inusitado, mesmo nesse torvelinho, eu olhava para cima, tentando ver uma televisão que dissesse alguma coisa ou mostrasse o que estava acontecendo.

Meus sobrinhos riam da minha aflição. COMO ERA POSSÍVEL ALI NINGUÉM SE INTERESSAR POR FUTEBOL E NÃO SE VER A TRANSMISSÁO DE NENHUM JOGO???

Depois de todos os procedimentos rotineiros executados e alguma espera, que até passou depressa graças à presença de minha irmã e sobrinhos, despedimo-nos e embarquei num enorme avião da VARIG que já vinha de TÓQUIO a acabara de lotar ali.

Sentia-me assustada e sozinha, mas acomodei-me onde indicaram, no meio do avião, na fileira de cinco poltronas, ao lado de outras pessoas silenciosas.

O avião decolou e em seguida várias comissárias de bordo circularam com presteza, servindo bebidas e uma pequena refeição aos passageiros, com a desenvoltura e graça que sempre deram o tom das viagens pela VARIG.

Um pouco mais tarde, terminado o serviço e todos acomodados, diminuíram as luzes e uma penumbra confortável convidava os passageiros a um cochilo. Eu também me propus a relaxar e fechei os olhos, deixando-me envolver pelo barulho monótono dos motores. Não sei quantos minutos se passaram, mas não foram muitos.

De repente o alto-falante de bordo deu um sinal sonoro e repetido que me chamou a atenção e, meio com preguiça, escutei: ai graças! era em português!

“Aqui fala o comandante Barbosa. Terminou o jogo Brasil e Rússia. O Brasil venceu por...”

O que aconteceu então foi algo completamente inusitado. Eu nem me lembro de ter ouvido o placar e até hoje não sei por quanto o Brasil venceu, só sei que, num impulso irrefreável e como movida por uma mola pulei da minha poltrona, de braços erguidos e gritando: IAUUUUU!!! IAUUUUU!!!!!

Foi terrível... imediatamente me dei conta do que fizera e me joguei na poltrona, morta de vergonha, querendo desaparecer.

Eu quebrara o silêncio reinante na aeronave e percebi um começo de pânico no ambiente, vozes alteradas e assustadas, certamente querendo saber o que estava acontecendo. Eu estava aterrada com o que fizera.

Nisso, o passageiro ao meu lado, certamente um nissei — o avião estava cheio de orientais — levantou-se em meu socorro e, de pé, acalmou os viajantes, falando em inglês que não se preocupassem, que nada havia acontecido de assustador, que estava tudo bem e que a “lady”, ao lado dele, era brasileira e estava apenas comemorando a vitória do Brasil contra a Rússia no jogo que acabara de terminar.

Foi uma risada geral e em seguida todos começaram a bater palmas, o que me obrigou a me levantar e agradecer. Imaginem eu, chorando, de mãos postas, agradecendo para todos os lados do avião e murmurando um deslavado “Excuse me, please!”

As palmas e risadas continuaram por mais alguns segundos, até as aeromoças riam e, em seguida sentei-me, agradeci ao meu gentil vizinho que me salvara e evitara uma situação sabe Deus de que tamanha conseqüência, e tentei me acomodar de novo.

Não pude, entretanto, deixar de me rir às escondidas depois que tudo se aquietou e a penumbra voltou a reinar. Ora essa! O que eu aprontara!

O meu atencioso vizinho me apresentara como uma “lady” e eu ri... Com certeza, com certeza mesmo não seria assim que uma “lady” se comportaria...

Mas decerto sim, seria assim que uma brasileira “vibradora” se comportaria... Que me perdoem os meus companheiros de viagem, daquele longínquo ano de 1982...