segunda-feira, dezembro 07, 2015

CADEIAS LOTADAS, ESCOLAS VAZIAS, HOSPITAIS À MINGUA...

imagem: http://www.mantenaterraboa.com.br/


                           Que está acontecendo ao nosso país? A inversão de valores, o descaso e abandono moral e ético que estamos assistindo e vivendo,  nos leva a crer que  fomos nós que sofremos um tsunami ou terremoto, e assistimos pasmados, incrédulos e inertes a uma transformação letal que nos está levando à desagregação completa e o nosso país ao caos irreversível.

                         É urgente que mudemos de atitude e entremos em ação. É inconcebível que nossos representantes políticos, cegos pelo vírus da corrupção desenfreada, não enxerguem  o tamanho do dano que estão fazendo à nação. Eles não têm filhos e netos?

                        É inaceitável que, de nossos presídios, fugidos ou libertos, em vez de cidadãos ainda socialmente recuperáveis e recuperados, saiam as bestas feras que temos  assistido diariamente nos noticiários, e é inaceitável que  todos nós, cidadãos que trabalhamos e arcamos com toda a carga de impostos e obrigações civis, estejamos reféns, inseguros e à mercê de quadrilhas, não só de malfeitores, mas de políticos inescrupulosos e bandidos de colarinho branco .

                        Ninguém mais se entende nesta terra? O que acontece  com nossas escolas? Por que as crianças também tem de pagar pela incompetência de nossas autoridades, quando só se fala em milhões e bilhões desviados com a maior desfaçatez? Que futuro estamos preparando para eles? Se a intenção é transformá-los em viventes apáticos e descrentes, estamos no caminho certo.
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                        A monstruosa irresponsabilidade de nossos governantes , que não se envergonham dos assaltos bilionários ao povo , poderia transformar nossos  presídios realmente em instituições de recuperação, usando as fortunas roubadas do povo construindo neles enormes galpões com escolas de ofício.

                       Se houvesse uma escola de mecânica de automóveis e a oficina correspondente, todos os carros  públicos poderiam ser consertados a custo mínimo e se estaria dando aos presos oportunidade de trabalho e aprendizado. “Cabeça vazia é oficina do diabo” já diziam os antigos..

.                     Uma  escola e oficina de marcenaria poderia fazer e ou  consertar todas as carteiras de alunos, móveis, armários, e tudo o mais necessário para suprir as escolas que andam  vergonhosamente carentes de tudo em sua maioria.  Nossos professores  estão desmotivados e desvalorizados, numa sociedade que, hoje, não reconhece neles e na educação a única saída para a redenção do nosso país
.
                      E muito, muito mais se poderia fazer nesse sentido... O leque de possibilidades é enorme e as necessidades imensas...  Todos sabem..
.
                      E nossos hospitais? Que dizer das vergonhosas cenas que assistimos nos noticiários? Onde estão os bilhões roubados que deveriam e poderiam  estar empregados para o povo em atendimentos decentes, remédios e manutenção, tirando os aparelhos obsoletos e , por isso, de caríssimo custo em consertos, que passam mais tempo fora de uso, deixando a população meses à espera de um exame?

                      Nossos hospitais precisam urgente de tratamento, estão terrivelmente doentes de abandono, os médicos estressados e desiludidos, incapazes de solucionar problemas que fogem a sua alçada, e o povo, além de suas  doenças e tristezas, tem de assistir resignado e calado a toda essa vergonhosa situação.

                       Resignado e calado por quê?  POR QUÊ?

Walkyria Gaertner Boz                                         
Professora aposentada, mãe de família, cidadã preocupada
                                                       
Curitiba, 28 de maio de 2015                                

“O que mais preocupa não é o grito dos violentos,
nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética..
O que mais preocupa é o silêncio dos bons”.
Martin Luther King

       
                                


IDOSO E VOLUNTARIADO

imagem: http://seniorsinservice.org/

                                        
                           A velocidade com que o mundo caminha, de uns cinquenta anos para cá, especialmente, é algo que, para nós, vindos de meados do século passado, chega a ser assustador.

                         São tantas as coisas que surgiram, tantas que se tornaram obsoletas, tantas que evoluíram para melhor (ou, quem sabe, para pior) que precisamos estar atentos e ligados, se pretendemos tentar acompanhar esse processo acelerado.

                        Os idosos, que já se aposentaram e cumpriram sua missão de cidadão, que criaram os filhos com maior ou menor dificuldade e agora vêm os netos manusearem telefones celulares e computadores ainda na mais tenra idade com uma  naturalidade espantosa, como se já nascessem sabendo , para não ficarem à margem de toda essa evolução, precisam “ir à luta”  e tentar, de alguma forma, sobreviver e participar desse “vendaval”

                        Além de usarem todos os recursos modernos de preservação da saúde que os tempos atuais oferecem, é importante passarem a seus descendentes os valores morais e tradições herdadas de seus antepassados, que não podem ser desprezadas e precisam ser resguardadas pelas novas gerações como: caráter ilibado, caridade, compaixão, solidariedade, gentileza e tolerância, coisas que temos visto estar caindo de moda ultimamente.

                       Uma das maneiras mais simpáticas de se dar esses exemplos é participar com regularidade da vida social do seu bairro, frequentando, em sua igreja ou seu clube ou entre seus amigos, ações em benefício da comunidade, coisa que os mais jovens não tem tempo de fazer, pois vivem correndo atrás de cumprir etapas de suas empresas, vencer concorrências, numa competição desenfreada pela manutenção do “status” que desfrutam ou tentando chegar lá.
                
                        E assim que muitos netos hoje ficam aos cuidados de seus avós para que seus pais possam correr atrás dos seus sonhos, coisa que há cinquenta ou sessenta anos atrás não ocorria-- eram os pais que, em certa fase, eram acolhidos na casa de seus filhos, que deles cuidavam até o fim--. Aqueles que já fizeram isso ou não tiveram netos e não tem alguma atividade, ficam marginalizados e, se não tomarem providências, nada mais farão que aguardar na inércia a hora de partir.

                       Há muito o que fazer. Nessa velocidade com que andamos, muitas coisas ficam esquecidas ou subvalorizadas, até estranhas  a essas novas gerações. Uma delas é a compaixão e a solidariedade, coisa que temos obrigação de preservar e dar exemplo ao mundo
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                       É isso que faz o VOLUNTARIADO, uma das ferramentas  mais poderosas do TERCEIRO SETOR:  uma proposta de amor e respeito à humanidade, que enfrenta, sem salários ou pagamentos, situações que, normalmente, são remuneradas a peso de ouro
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                      Tudo é enfrentado com a consciência de sua responsabilidade de cidadão e foi assim que surgiu a REDE FEMININA DE COMBATE AO CANCER. Primeiro, cientes da necessidade de se ter aqui um centro de referencia no combate ao câncer, e com um grupo pequeno de senhoras, o grupo não esmoreceu e perseguiu seu objetivo até que conseguiu inaugurar o HOSPITAL ERASTO GAERTNER, dezoito anos depois, em 1972
.
                     Fizemos, em março deste ano, sessenta anos de atividade ininterrupta desde então e temos muito orgulho de nosso trabalho em favor dos nossos doentes. Somos perto de quatrocentos voluntários atualmente  que desenvolvem as mais variadas atividades dentro e fora do hospital, cooperando com a administração auxiliando na melhoria do fluxo, e dando suporte emocional aos doentes , orientando-os, acompanhando-os, ouvindo-os, tentando dar um tanto de conforto àqueles que nos procuram...

                     Creiam... é um trabalho que todos podemos fazer e o que recebemos em sorrisos e agradecimentos é tão gratificante que nos sentimos muito bem pagos e ainda devedores.

.                    A sociedade está cheia de setores necessitados de voluntários e todos podemos  escolher o que fazer, de acordo com nossas preferências e tendências e é importante, se temos saúde,  que não nos deixemos enredar pela apatia e pela preguiça.

                    Vamos, do nosso jeito, acompanhar o mundo em sua veloz trajetória! Vamos trazer bem firme para nossos descendentes nossas tradições de amor, compaixão e solidariedade!Vamos mostrar que ainda temos coração, cérebro e energia para tentar lembrar a esse mundo atual, tão maravilhoso em tecnologia, que ainda vale a pena sermos caridosos, carinhosos e...humanos. 
                    

                                                                   Curitiba, 18 de julho de 2014

Sobre MAIS MÉDICOS

imagem: uol.com.br
                     
                    É incrível...A quem será que estão tentando convencer com essa "manobra" de desprestigiamento contra os médicos brasileiros?

                    Sou leitora dessa revista há anos e ultimamente tenho me decepcionado com alguns articulistas. O artigo de Leonardo Attuch na edição 2285 me apresentou uma visão muito distorcida da minha, com respeito ao programa "Mais Médicos."

                   Sou uma mera cidadã preocupada com o caminho que as ações do governo vem tomando, mas penso que meu ponto de vista é compartilhado por milhões de brasileiros, por isso me atrevo a me manifestar.

                  Incrível como, de repente, aparece um programa espetacular, resolvendo toda a questão de saúde do país!

                 Há anos estamos vendo  e sabendo como andam as coisas por aqui, nesse setor, e é sabido que nossos médicos  não vão para o interior por causa da infraestrutura de nossos postos de saúde,  a grande maioria sem o mínimo de condições necessárias ao funcionamento, sem as adaptações e equipamentos indispensáveis, sem os medicamentos mais emergenciais, desmotivando os médicos até com ambientes indignos dos atendimentos mais elementares, além de salários incompatíveis e ultrajantes, o que faz nossos profissionais de saúde se recusarem a participar de tamanha ignomínia.

                E, de repente, se está consertando tudo! Será que a "varinha mágica" do governo vai funcionar finalmente? Será que querem nos esconder as verdadeiras intenções sob uma cortina de fumaça, humilhando nossos profissionais e trazendo para cá médicos estrangeiros incautos que não vêm a armadilha em que estão caindo?

               Temos médicos suficientes sim! Não acredito que algum recém formado bem pago, e tendo condições minimas de praticar a medicina se recuse a ajudar nosso país!

               Não acredito que essa parafernália toda dê prestígio ao governo, como prevê o articulista.

               Estão subestimando a inteligência do povo brasileiro ...


  Este  texto é uma carta que enviei à revista ISTO É , em 05/09/2013

domingo, maio 09, 2010

Amo Curitiba

Há algumas semanas o programa FANTÁSTICO divulgou uma pesquisa que elegeu nossa cidade, Curitiba, como a mais limpa do país. Sem falsa modéstia, merecemos esse título...
Estive no Rio há poucos dias e, com tristeza, constatei o quanto a cidade está “à deriva” em seus lugares mais críticos. Em São Paulo se vê a mesma coisa, imóveis abandonados e decrépitos, decadência nos cuidados mais elementares, prédios antigos e ainda imponentes mutilados pela ação inescrupulosa dos grafiteiros, que não respeitam a propriedade privada nem pública O centro da cidade sujo e triste, e o povo, certamente desolado e revoltado, tendo de conviver com isso.
Ocorreu-me que devemos, com urgência, tomar nossas providências antes que tais abusos proliferem por aqui... e já se pode ver que estão começando a ganhar força, em alguns pontos da cidade eles já começam a se espalhar.
Ocorreu-me também que os grafiteiros são artistas enrustidos e carentes e que precisam de apoio (???!!!). Precisamos dar-lhes um espaço adequado antes que “devorem” nossa cidade.
Há um dito popular que diz: “Todo artista gosta de estar onde o povo está”
Então, o que temos de fazer é deixá-los se exibir!
Por exemplo: poderiam construir um enorme painel, dezenas de metros no Parque Barigui onde eles poderiam “grafitar” à vontade e à vista do povo, e em outras praças também, extensos painéis verticais que,  de vez em quando, a prefeitura pintaria de branco, deixando tudo limpinho para eles sujarem de novo. Talvez aí a fúria artística desses “talentos” se atenuasse e todos sairiam ganhando, especialmente nós, curitibanos, que não gostamos nada desses caracteres pintados em nossas paredes.
Ah, também poderia haver até, para quem se interessasse, um desses “artistas” dando aulas sobre o significado de seus escritos e a tradução de seus sinais estranhos, não seria uma boa idéia? Eles estariam sendo valorizados e compreendidos. Vai ver que é isto que lhes está faltando!
Agora, há os que têm paixão pelas alturas e, não sei como, conseguem escrever nos pontos mais altos dos edifícios.
Isso seria fácil. Para os que gostam de desafio e de alturas, que tal colocarmos um desses painéis no alto do CCI ou de outros prédios bem altos e que provavelmente já estão na mira de nossos “heróis”? Ou ainda, colocar um painel bem chamativo no alto do Palácio do Governo? Ou no alto do quartel da Polícia Militar?
Acho que isso lhes atiçaria a adrenalina
Não é uma boa idéia? E livra-nos de muitos males...
 Tempos atrás se fazia uma mistura de mel e cola que se passava num papel e se colocava em pontos estratégicos da casa para pegar moscas. Pois é....

Walkyria Gaertner Boz
Curitiba, 16 de fevereiro de 2010

Mundo Cão

     
     Ele está ali quase todos os dias, sob sol quente ou friagem, na mesma esquina movimentada de Curitiba, pedindo esmolas Há muitos anos é o meu caminho de casa e nos tornamos familiares.

     Não é uma criança, é um homem jovem, aparentando por volta dos trinta anos, esquálido e sujo, deficiente físico. O que mais me incomodava era justamente aquela perna. Ele a traz enrolada em trapos e a coloca num pedaço de cano de PVC para poder andar e vai,  trôpego, abordando os motoristas que suponho, como eu, já o conhecem há tempos e diàriamente contribuem com suas moedas.
     Sou voluntária no Hospital Erasto Gaertner e, por esses caminhos do destino, temos lá o IBEG (Instituto de Bio engenharia Erasto Gaertner) que produz uma série de aparelhos e próteses, já sendo referência nacional,  concorrendo em igualdade com similares internacionais e, tempos atrás, tivemos numa de nossas palestras rotineiras de treinamento, uma técnica nos demonstrando em power point todos os produtos em disponibilidade e lá eu vi o que poderia ser a redenção do Daniel de Oliveira.

     Nem é preciso dizer que eu já lhe fiz várias perguntas e havia sim a possibilidade de conseguirmos, sem ônus para ele, uma prótese. Procurei todas as respostas sobre internamento, tempo de tratamento e remédios através do SUS e todas as informações foram alentadoras.

     Voltei para casa animada com a idéia e, na mesma esquina de sempre e sempre sorridente, lá estava ele cumprindo sua jornada de esmoleiro.

     Estacionei no meio fio perto e lhe fiz sinal para se aproximar. Lá veio ele, manquitolando, com aquele cano horrível até o joelho.

     Falei a ele de tudo, das possibilidades maravilhosas dele se livrar daquele horror, disse-lhe que tudo lhe seria doado, sem lhe custar nada e que beleza seria depois.

     Ele me ouvia sorridente e em silêncio, eu achando que passava para ele uma coisa ótima e,  não sei como , não o via participar do meu entusiasmo.

          -Então, Daniel ? O que acha disso?
          - Não sei, dona...preciso pensar...eu tenho família...preciso pensar...

     Ah, então o problema era esse...e eu nem tinha m,e lembrado disso! Que tremenda falha minha!

     Pensei ligeiro... mas isso eu certamente resolveria com o voluntariado! Tinha certeza que minhas amigas participariam desse programa   regenerador com  o mesmo entusiasmo meu!

     Falei-lhe disso, dizendo-lhe que, enquanto em tratamento nós daríamos um jeito de ajudá-los a passar, que eu tinha muitas amigas e etc...

     Ó Deus, ele continuava impassível, sorrindo.Ao fim,  disse:

          -Ó, dona , eu vou pensar...eu vou pensar...

     E saiu, claudicando, cuidar dos outros “fregueses” que paravam no sinaleiro.

     Que frustração.. .dei partida ao carro e me alinhei , esperando o sinal abrir. Ele ainda me deu com a mão e segui meu caminho. Eu falhara.. não fora convincente o necessário para entusiasmá-lo...

     Será que o pressionara muito? Será que ele se assustou com a idéia? Afinal, afora o nosso velho contato superficial de nos vermos naquela esquina, ele nada sabia de mim e nem eu dele... Realmente ele estava certo... precisava pensar muito...

     Deixei o tempo correr e, sempre que ali passava comparecia com minhas moedas e ele sempre me cumprimentava sorridente, agora com um sorriso mais amigável, mas só isso.

     A idéia ainda não amadurecera, decerto...

     O tempo passou e chegou um dia em que eu voltava mais cedo para casa e tinha algum tempo livre. Na mesma esquina lá estava ele e sua rotina. É hoje! disse para mim mesma. Chega de espera! Com certeza ele está constrangido em vir me falar,  pois tudo isso lhe deve ser muito doloroso.

     Encostei o carro e lá veio ele ao meu encontro.
Agora ele tinha arrumado uma bicicleta velha onde apoiava a perna doente e a vinha manobrando até seus “contribuintes”.

     Fiquei a imaginar a dor que ele devia sentir para arrumar aquela “catraia”   para poder se locomover.  Desumano...Insuportável.

          -Então, Daniel? Já pensou? Já se passou bastante tempo...

     Ele parou ao lado do meu carro e ali já não sorria. Ví tristeza em seus olhos.

          -Então meu amigo? Vamos jogar fora essa sucata?

          -Não posso, dona...não posso...

          -Que é isso, Daniel? Está com medo? Já lhe disse...

     Ele fez sinal com a mão para que eu parasse.

          -Não, dona! Não é medo! Eu sou muito grato... mas não posso...

          -Mas por que? Você não vê quanta coisa boa vai lhe acontecer depois disso?

          -Vejo, dona...vejo...mas vai acontecer muita coisa ruim também...

     Olhei para ele surpresa. Como?

          -Olha, dona, eu tenho família...

          -Eu sei, você já me disse! Mas eu também lhe disse...

     Novamente ele me fez sinal para parar.

          -Eu sei, dona, tudo que a senhora vai me dizer.Tudo que ficou martelando na minha cabeça todo esse tempo, mas eu não posso mesmo...Eu não tenho leitura...não sei fazer nada , só isso.Desde pequeno fui ensinado a fazer o que faço e nada mais...mas tenho família. Se eu ficar são, como vou arrumar dinheiro? Quem vai me dar trabalho se não sei fazer nada, nem ler? Não vou ter cara de pedir esmola! Vou perder o “ponto”!

     Eu mal o via, tinha os olhos embaçados por lágrimas que teimavam em cair. Ele também piscava muito...

          -Deus que abençoe a senhora, dona, mas não tem  jeito...tudo bem...paciência...e a senhora vá com Deus!

     Virou a bicicleta e foi se afastando, decerto para eu não ver sua emoção.

     Esperei mais uns instante para me recompor e saí, mas naquele instante acho que não estava com Deus, como ele me desejara...

     Estava revoltada com o mundo, com toda a impotência que me amarrava e me tornava tão inútil quanto ele por não estar em minha alçada dar fim a tamanho sofrimento...

Walkyria Gaertner Boz
Curitiba, 09 de maio de 2010

terça-feira, fevereiro 16, 2010

DESENCANTO




Poucos dias atrás estive no Rio e, enquanto o ônibus avançava vagarosamente em direção à Rodoviária num trânsito congestionado pela Avenida Brasil, minha mente voltava devagar também muitos e muitos anos atrás e meu coração se confrangia com o que via...

Morávamos em Bonsucesso e meu pai, que nessa época trabalhava na ponte do Galeão, apaixonado por obras, levava-nos aos domingos apreciar as obras da Avenida Brasil da qual ele falava com entusiasmo e eu lhe perguntava: “Porque uma rua tão larga?”

“Ah, filha, em pouco tempo essa avenida estará cheia de carros! Vai ser uma ‘veia’ importante de chegada e saída de produtos do país e, depois, estará perto do porto. É uma estrada muito importante...”

Aos poucos a estrada, que cortava uma faixa quase inabitada, foi se tornando um centro industrial e fábricas e empresas de porte ali se instalaram. A Avenida Brasil, em poucos anos, era um reflexo do progresso brasileiro, com seus caminhões enormes demandando a via Dutra e dela chegando.

E agora? Que aconteceu com a nossa cidade? A Avenida Brasil é o cartão postal ÀS AVESSAS do Rio! Que triste é se chegar por ali e ver a degradação e a sujeira que ela vive hoje. Os prédios e galpões enormes em ruínas! Tudo abandonado como se ali tivesse havido uma guerra – e me parece que HÁ mesmo...

Os governantes passam por ali? Claro que não...



Vão para o Galeão de helicóptero e dali pegam os jatos para o mundo todo e ainda ficam comemorando o Rio ganhar para sede de uma Olimpíada... A irresponsabilidade é tal que não vêm que o Rio não vai precisar APENAS de uma mera maquilagem e sim de uma CIRURGIA PLÁSTICA extensa.

A Rodoviária está obsoleta, faltam-lhe os recursos da tecnologia moderna. Se ela resolvia há cinquenta anos, agora está decadente. E o lugar é ótimo. Num ponto de fácil acesso para todos os lados, tem muito espaço para crescer ali mesmo, em meio a dezenas de galpões abandonados ou em desuso do Porto do Rio. Seria o sonho de um bom arquiteto transformar aquele espaço degradado em uma estação de passageiros moderna e funcional, com tudo que os tempos de hoje exigem.

Pode ser que esses planos já existam (seria muito bom), mas eles já deveriam estar sendo executados DESDE ONTEM para dar tempo para as Olimpíadas e mais, estar a contento do povo do Rio que merece isso.

A Avenida Brasil precisa ser revitalizada e deixar de expor à visão dos visitantes a miséria do abandono e o “parque de diversões” dos grafiteiros. E há muito que a prefeitura pode fazer, reaproveitando e restaurando as antigas construções transformando-as em Postos de Saúde, Escolas de Ofícios (muitas), Ginásios de Esportes (muitos e muitos!), Albergues, Casas de Apoio, Restaurantes Populares com refeições a preço simbólico, Mercados Populares, Banheiros Públicos e tantas coisas mais que todos sabem que podem ser feitas com muito menos gasto do que as fortunas que os governantes escondem nas meias e cuecas. Falta vontade política e é importante manter o povo na miséria e na ignorância... e à mercê do tráfico de drogas...

Até quando os CARIOCAS DE VERDADE aguentarão isso?

Vão aceitar ser humilhados com a visão constrangedora do Rio, abandonado em tantos setores e em tantos lugares e aceitar uma “maquilagem” sem vergonha sobre tudo o que nos envergonha e aguentar as críticas corretas dos turistas e visitantes do Carnaval e das próximas Olimpíadas, que não entendem os contrastes chocantes que se lhes apresentam?

Que me perdoem os iludidos...

Esse é apenas o desabafo de uma meio-carioca, visionária, que se criou no Rio das “cadeiras nas calçadas” e dos passeios de barca a Paquetá, dos piqueniques no Parque da Cidade e dos domingos na Quinta da Boa Vista...

“Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A presença distante das estrelas!...”
(Mario Quintana – Espelho Mágico)


Walkyria Gaertner Boz
Curitiba, 16 de fevereiro de 2010

sábado, maio 23, 2009

Cidadã Honorária de Campo Mourão



Tenho certeza de que todas as pessoas que aqui se encontram têm lembranças fortes, uns de um passado longínquo, outros de um passado mais recente.

Hoje eu estou aqui para firmar uma lembrança alegre- uma marca para mim, para meus filhos, meus netos e esse grupo de minha família e de amigos que me acompanha- penso, especialmente, em meus netos, que estão aqui todos, presenciando esta solenidade.

Eles poderão no futuro, quando eu já não estiver mais aqui, contar que assistiram uma cidade conceder o título de CIDADÃ HONORÁRIA a uma simples mulher que, para receber esta honraria apenas estava no lugar certo e na hora certa, contribuindo com sua sensibilidade a uma “cidade-menina” que carecia de tudo e despontava pujante no estado do Paraná.
Uma cidade tão especial, tão surpreendente, tão à frente e acima dos padrões de avaliação conhecidos, que não lhe cobrou títulos nem vistosas ações.Apenas pesou, talvez, sua modesta atuação na assistência social, quando aqui tudo era preciso e tínhamos tanto a fazer pela cidade.

Fico a pensar no que os levou a essa homenagem...

Terá sido pela autoria da singela música do HINO DE CAMPO MOURÃO?

Creio que não... só isso não seria suficiente para tão expressiva homenagem.

Muitos aqui talvez não saibam mas, além de lecionar no Colégio Estadual e na Escola Normal, participei com muito empenho num projeto de assistência à Maternidade e à Infância, quando tudo aqui estava começando e tudo era muito difícil de conseguir e eu acho que, muito mais que pela minha atuação como professora e pela composição do HINO DE CAMPO MOURÃO, o responsável maior por eu estar aqui é o SR. JOÃO...



O “SEU” JOÃO

Fazia poucos meses que eu morava em Campo Mourão.

Tinha 23 anos e um filhinho de 5 meses.Era vizinha do Bispo de Campo Mourão que, um dia, mandou-me um convite para um lanche em sua casa. Surpresa, pois quase ninguém conhecia, compareci e lá encontrei várias senhoras que, mais tarde, vim a saber que faziam parte expressiva da sociedade local. Eram as esposas de médicos, empresários, juiz, prefeito, promotor, comerciantes e representantes de todos os setores.

Antes do lanche o Sr.Bispo, Dom ELISEU SIMÕES MENDES, explicou o motivo do convite e deixou-nos a todas aturdidas. Ele solicitara, em todo o municípoio, um levantamento sobre a mortalidade de parturientes e recém-nascidos e o resultado foi aterrador.

Não me lembro mais das proporções, mas era deveras preocupante e dom Eliseu nos disse que nos reunira ali para ver se conseguiríamos ajudar de alguma forma a minorar o problema, já que o governo não parecia que viesse a dar conta desse setor.

Sugeriu que fundássemos uma sociedade beneficente, pediu que refletíssemos sobre a gravidade do problema e a nossa responsabilidade e marcou uma nova reunião. Foi assim que surgiu a A.P.M.I. de Campo Mourão ( Associação de Proteção à Maternidade e à Infância de Campo Mourão), respaldada pelo bispado, e apoiada por todos os segmentos da sociedade.

Pusemos mãos à obra, todos se prontificaram a ajudar, os médicos se puseram à disposição e, formando equipes, andávamos pela cidade angariando sócios para a nova entidade, o que surpreendia muitos cidadãos, para quem explicávamos os objetivos da nova sociedade.

Foram afixados avisos em todas as igrejas e capelas do interior, postos de saúde, fórum, escolas, prefeitura...

Os padres explicavam após o Evangelho, tudo convocando as mulheres grávidas a virem fazer o pré-natal e trazerem seus bebês para serem examinados, vacinados e acompanhados pelos pediatras que, aliás, foram de grande ajuda para a nossa empreitada.

Conseguimos uma casa modesta e nos preparamos com palestras dadas pelos médicos e pediatras para iniciarmos a orientação às gestantes.

Paralelo a isso, funcionava por iniciativa do bispado e da prefeitura, um CLUBE DE MÃES, que, ao nosso lado, passava às mães noções de higiene, cuidados e alertas aos sintomas de doenças

Mas a coisa não andava...

Nós tínhamos tudo organizado e não conseguíamos convencer as gestantes a se submeterem a exames e tratamento. Nada surtia o efeito esperado, umas poucas atendiam o nosso apelo.

O povo do interior, arisco e desconfiado, não acreditava no nosso apelo e ainda vigorava fortemente o velho costume dos partos feitos pelas “comadres” e o costume atávico de não se expor a médicos- especialmente as mulheres.

Nós não sabíamos mais como fazer para conquistar a confiança dos caboclos, e eram eles especialmente o nosso objetivo, pois no interior do município é que se apresentava o pior do problema

Estávamos desanimadas...

Um dia meu marido, que era Inspetor de Terras, ia entregar uns documentos num sítio longe.Estava uma manhã bonita e ele me perguntou se eu não queria ir junto.Eu, que não conhecia a região, gostava de fazer esses passeios e lá me fui com meu gurizinho ao colo.

O “jipe” ia “corcoveando” pelos carreiros íngremes e paramos em vários lugares, onde meu marido descia e conversava com os homens. Chegamos à casa do tal senhor que ele procurava, onde a mulher nos indicou para que lado do sítio eles estavam trabalhando e lá fomos , em meio à plantação.

Uma coisa me havia chamado a atenção. Nos lugares onde passávamos havia sempre o som de um rádio tocando alto músicas da época— o radinho de pilha era a maior novidade e a febre do momento.

Quando afinal chegamos onde estavam trabalhando—eram muitos homes, mulheres e crianças—meu marido desceu do “jipe”, achou quem estava procurando e lá ficaram conversando.Eu observava tudo quieta mas atenta e, de repente, uma coisa me chamou a atenção: pendurado num galho de cafeeiro e tocando bem alto lá estava ele: o RADINHO DE PILHA.

Foi o sinal!Naquele instante me veio a idéia de que ESSE era o caminho para chegarmos até eles!

Na volta à cidade, em nossa primeira reunião, expus minha idéia mas, achando graça e com reservas, muitas senhoras consideraram difícil pormos em prática esse novo estratagema de divulgação.

Justamente uma das senhoras do nosso grupo, dona Elza Brisola Maciel, era a diretora da difusora de rádio local e se entusiasmou com a idéia, colocando a emissora a nossa disposição e eu me prontifiquei a fazer o programa. Isso para mim não era difícil já que tivera, em solteira, nos meus tempos de estudante, contato com o microfone da Rádio Ministério da Educação, no Rio, num programa semanal de música clássica.

Com certa vacilação a respeito do sucesso, a idéia terminou aprovada porque, afinal, não nos custava tentar e precisávamos fazer alguma coisa.

E assim surgiu o programa da A.P.M.I. na Rádio Colméia de Campo Mourão, comigo ao microfone. É claro que todos me ajudaram com sugestões e contei com a ajuda dos pediatras para me orientarem nos conselhos que daria e minha idéia era falar dum modo que, realmente, chegasse até eles.

O programa era semanal e saiu mais ou menos assim:

Eu me apresentava, dizia que era de uma entidade nova que fora fundada para proteger as mães e as crianças e, principalmente as gestantes e dizia que era para todas as mulheres. Que sabia das dificuldades que tinham por morarem tão longe da cidade e que estávamos, justamente com aquele programa, de MÃE PARA MÃE, tentando ajudá-las.

Eu passava algumas noções básicas sobre cuidados com tosse, diarréia, verminose, anemia, mostrava como identificar os sintomas e falava de legumes, hortaliças e frutas, como deviam ser tratadas e lavadas, tudo de maneira bem simples para que compreendessem bem, e , às vezes repetia, dizendo:” Eu sei, dona Maria, que a senhora não sabe escrever para anotar, mas tem cabeça boa! Preste atenção! Vou repetir bem devagar e vá guardando aí na memória!”

Passava receitas de aproveitamento de alimentos, sopas, bolachas, bolos, maneiras de armazenar alimentos e higiene em geral.

Depois falava com os homens e, com eles, era bem dura.

“E então, “seu” Zé! Cuidando da lavoura, hem? Está mesmo ficando uma beleza! Desta vez o senhor acertou no adubo e plantou na hora certa... Isso é muito bom, a colheita é garantida!... Mas encosta a enxada um pouco e vem aqui na sombra que eu quero lhe falar!...”

Aí eu “pagava pesado”...

“Pois é, “seu” Zé... a lavoura está indo bem. O tempo está ajudando...olha, pensa que eu não sei? O senhor está até pensando em comprar um tratorzinho, ou tratar mais gente para lhe ajudar no ano que vem, não é verdade? Tem lá os seus planos, não é isso? Isso é muito bom...muito bom...E lá na sua casa, hem? Também está planejando alguma coisa? Coitada da dona Rosa!...Já está “de barriga” de novo e puxando água do poço para lavar roupa, cozinhar e dar banho nas crianças.Aliás elas andam até “fedidinhas” por tomarem pouco banho...E sabe que elas não podem andar descalças, não é, “seu” Zé? Pegam lombriga, bicho de pé e outras coisas ruins que não quero nem falar”!...

“O senhor não me leve a mal... mas que tal separar um dinheirinho da colheita e puxar água para dentro de casa? O olho d’água não é longe!...E, pense bem! Que beleza vai ser para todo mundo! A dona Rosa então vai ficar muito feliz! Não precisa mais andar arrastando aquele balde pesado...”

Outro dia eu falava com o “seu” João... e ia mais ou menos do mesmo jeito:
-“Ô “seu” João!, “tá” bonita a lavoura este ano, não é?É... no ano passado o senhor sofreu...também a chuva atrapalhou e acabou plantando meio tarde, não foi? Ou foi muito cedo? Ou foi o adubo que não era bom? É...precisa ver tudo isso para não ter aborrecimento mais tarde...Falando nisso, já estou sabendo. Dona Tereza está “esperando” de novo...o senhor vai ligeiro, hem? Veja bem...O que o senhor faz quando a terrinha está meio fraca? Vem aqui na cidade buscar adubo, fertilizantes e outras coisas mais para fortalecer a terra, não é? E o senhor já pensou na dona Tereza? Um filho atrás do outro e trabalhando do jeito que ela trabalha, o senhor não acha que ela precisa de uns fortificantes também ? O senhor não vai querer que o moleque nasça “mirradinho”, vai? Pois é, “seu” João! Tem de tratar dela também!Tem de trazer a dona Tereza com as crianças até aqui, procurar a gente na A.P.M.I. , que dá assistência com médicos e remédios e exames às mães e às crianças, assim como a Casa Rural lhe ajuda aqui! Se a dona Tereza se tratar, vai ver só a saúde do “garotão” que vem vindo! E trazer os outros também para fazer exames, para ver se não precisam de remédio para as lombrigas.E o Pedrinho com essa tosse braba, hem? Traz eles até aqui para a gente ver isso!

Olhe, aproveite e vá também à Prefeitura que lá eles lhe dão toda a orientação para fazer a “casinha” no lugar certo. O senhor sabe que precisa ter uma ”casinha” bem localizada, não? Senão corre perigo de estragar a água e daí, Deus me livre! Aí vem um montão de problemas! Mas o que não pode mais é ficar sem “casinha”... o senhor me entende, não é, “seu” João? Venha até aqui falar conosco que nós o orientamos!... Tem muita coisa boa que dá para vocês aproveitarem e, VEJA BEM, sem despesa, viu? É só vir e trazer a família...”

Outro dia eu falava com o “seu” Antonio, depois com o “seu” Pedro, com o “seu” Francisco, e as conversas eram por aí, mais ou menos as mesmas.

Certo dia estava eu em casa quando a empregada veio me dizer que tinha um senhor a minha procura.Perguntei a ela se não era meu marido que ele procurava já que a Inspetoria de Terras era junto, no mesmo lote. Ela disse que não, que era comigo que ele queria falar.

Cheguei à porta e lá estava um caboclo bem vestido, de botas lustrosas e chapelão ajeitado, tendo a mulher grávida e as crianças ao lado, bem arrumados, muito tímidos e de cabeça baixa.

Fui até eles e perguntei se era a mim mesmo que procuravam. O homem, muito altivo e respeitoso, me perguntou:
-“A senhora é que é a dona Walkyria ?”
-“Sim, senhor” respondi.
-“Pois é com a senhora mesmo que eu vim falar!... A senhora FALOU COMIGO OUTRO DIA PELA RÁDIO. Eu assuntei... assuntei... e achei que era bom mesmo trazer a “famia” para fazer os “tar” de exame...”

Eu fiquei tão emocionada que me vieram lágrimas aos olhos!

Meu Deus! Eu estava conseguindo!

Mandei-os sentar, servi-lhes um refresco e tratei de encaminhá-los, depois de conversarmos um pouco. Vinham de longe, do “fundão” do município.

Eu mesma fui levá-los e queria que se sentissem à vontade. Durante a consulta da mulher com o ginecologista fiquei ao lado dela que, envergonhada, relutava em responder as perguntas do médico e eu tentava quebrar sua timidez e insegurança.

As coisas começaram a mudar. A afluência de gestantes e crianças foi aumentando, fomos ganhando a confiança deles mais depressa e, não muito depois, com verbas do governo, auxilio forte do bispado, da prefeitura e do povo— promovíamos lanches, desfiles de modas, barraquinhas de pastéis nas feiras e feijoadas— conseguimos construir uma nova e ampla sede que, além do Clube de Mães, cozinha para aulas, consultórios para os médicos e sala de espera, tinha até um consultório dentário, atendido pela nossa companheira, Dra. Kátia Braga.

Acho que vem daí a causa desta reunião festiva que tanto me gratifica...

Foi por causa do meu jeito de falar ao microfone que consegui atrair uma faixa carente da população do município que, orgulhosa, analfabeta e arisca, resistia às “modernidades” da cidade.

Devo ao Sr. JOÃO, que atendeu e entendeu o meu apelo, que confiou no que eu dizia. Por influência dele, talvez, muitos outros Srs. João, e Antonio, e Pedro, e Manuel e Francisco vieram em seguida, quebrando um “tabu” de resistência que tanto os prejudicava.

Foi o começo. Eu apenas estava aqui no momento certo...

Obrigada minha cidade querida!

AS lembranças dos anos que vivi aqui sempre me são muito gratas e sempre me considerei mourãoense de coração. Passei aqui os anos mais fortes e produtivos de minha vida... e lhes sou muito grata por eles.

Obrigada minha cidade!

Walkyria Gaertner Boz

sábado, abril 25, 2009

Meu Colega Cosme


Era um menino baixinho e quieto Era negro também, mas ninguém se importava com isso, não me lembro disso fazer diferença, naqueles idos de 1950. No Rio de Janeiro, onde me criei, quase todos éramos mestiços e descendentes de imigrantes, com muita ênfase em descendentes de portugueses, com os sobrenomes Silva, Pereira, Oliveira, Santos muito disseminados. Ele chamava-se Cosme...


Eu sim, me considerava uma discriminada. Meu nome era sempre motivo de comentários dos professores sobre imigração européia e minha ascendência italiana e alemã, com nome e sobrenome de letras complicadas, era sempre motivo de curiosidade, especialmente numa escola pública de subúrbio pobre carioca...


Ele não, nele tudo era simplicidade. Era bom aluno, atencioso e educado com os colegas, sempre se destacava entre os primeiros da classe. Eram uns dez meninos somente, mas ele se destacava também, a meus olhos, por estar sempre com a farda impecável.


Uma coisa que agora me chama a atenção é o porquê da “farda”. Num calor constante como no Rio, os meninos usavam farda de brim cáqui, cheia de bolsos chapados e botões dourados, com cinturão e mangas compridas como dos militares, enquanto nós, meninas, usávamos saia marinho de pregas e blusa de mangas curtas branca, bem mais de acordo com o clima local.


Mas não é disso que me propus a falar.


Sentávamo-nos por livre escolha nas carteiras, misturados naturalmente pelas afinidades e tudo ia muito bem até que, não sei por que motivo, um dos professores resolveu nos separar e colocou os meninos nas carteiras do fundo da sala. Naqueles tempos se obedecia sem rebeldia e os professores eram respeitados e tratados com deferência pelos alunos e suas famílias, bem diferente do que se vê hoje-- comportamento inimaginável para mim, que não acredito ser possível aos mestres serem tratados como o são hoje.


Tínhamos provas orais e escritas em junho e em dezembro. Estudávamos mesmo para passar de ano, e eram tempos de muito trabalho e nervosismo.


Eis que, de repente, fui chamada à sala da Diretora. Eu estava monitora de classe e, com certeza, conhecia bem meus colegas. Estavam alguns professores lá, aparentemente me aguardando, e me senti apreensiva com o que poderia estar chegando. Que estava acontecendo?


A Diretora me perguntou o que eu achava do Cosme. Eu, certamente, olhei para todos com cara de “ponto de interrogação” e, sem entender nada, disse que o achava um bom colega e que sempre fora um bom aluno.Mas o que estava acontecendo com ele? Estava doente?


A Diretora me disse que ele colara na prova final de História que fizéramos na antevéspera.
Que? O Cosme? Colando? Em prova final? Fiquei pasmada e disse que não acreditava. Ainda mais em História! Ele era ótimo em História!


A Diretora me disse que ele já estava sendo vigiado e que dera mostras já, nas provas de Geografia e Ciências do mesmo problema.


Mas não pode ser, disse eu!Ele é ótimo em todas essas matérias!


A Diretora olhou muito séria para mim e me dispensou. No dia seguinte fui chamada à sala da Diretora de novo e, para minha surpresa, lá estavam quase todos os professores, o Cosme e seus pais, humildes e assustados.


Deus do céu! Vão expulsar o Cosme!Como é que foi acontecer isso?


Foi um verdadeiro julgamento. Eu estava como testemunha da classe e do que ocorreria em seguida e também estava muito assustada, com muito dó do meu colega.


A Diretora explicou a todos do que se tratava e, tratando os pais dele com bondade, disse-lhes da gravidade da situação. Pediu então ao professor de História que mostrasse a prova do Cosme e em seguida fizesse as perguntas. Meu colega estava altivo, apesar de assustado e não baixou a cabeça e respondeu, inclinando a cabeça para a frente para melhor ouvir as perguntas, que nunca tinha colado.O professor repetiu a pergunta e ele continuou negando.


Eu tremia de aflição.


O Cosme então, em desespero contido e educadamente, pediu ao professor que lhe fizesse qualquer pergunta da prova. Todos os professores se entreolharam e a Diretora acatou o pedido, dizendo ainda que, se ele acertasse a resposta, seria aprovado.


Era uma luz no final do túnel, mas será que o Cosme agüentaria? Certamente o professor faria a pergunta mais polêmica e de interpretação dúbia para pegá-lo numa armadilha. Eu continuava tremendo... Como ele conseguiria?


O silêncio era total. O momento era decisivo. Da resposta dele dependia não só a aprovação anual do Cosme, mas também a sua honra.


O professor, muito sério, fez a pergunta e, dado a gravidade do momento, a repetiu pausadamente.


Eu, de aflição, suspendi a respiração e acho que todos fizeram o mesmo.


O Cosme, olhando firme para o professor, começou a responder alto e em bom som. E, à medida que ele falava, todos nos entreolhávamos.


Meu Deus! Que é isso?


O professor, pálido, silenciosamente abriu o livro e o colocou à frente da Diretora. O Cosme repetia, palavra por palavra, os dizeres do livro, tal e qual!


E não parava! Continuou recitando o capítulo, com todas as palavras do livro!A surpresa dos professores foi tal que todos se entreolhavam sem entender. O professor de História baixou a cabeça, a Diretora e os pais do Cosme choravam. Eu também.


Ele continuava recitando o capítulo. Eu olhava para a Diretora como a perguntar: Não chega? Até que ela, em seguida, mandou-o parar.


Todos estávamos muito emocionados e mais ainda ficamos quando a Diretora lhe perguntou por que ele sabia o livro de cor.


Ele, muito encabulado, como se estivesse expondo algo muito íntimo e muito feio, disse que quase não ouvia o que o professor dizia e, como se sentava lá atrás, se obrigava a decorar todas as matérias discursivas.


A Diretora, estarrecida, perguntou à mãe dele se era verdade e a senhora, muito nervosa, confirmou, dizendo que o Cosme não queria que ninguém soubesse por que tinha muita vergonha disso.Ele estava surdo!


A tempestade, que se anunciara tão feia se abriu num sol esplendoroso...


Foi uma alegria geral. Corri a abraçar meu colega que chorava agora, terminada a tensão, e o mesmo fizeram todos os professores.


O Cosme foi aprovado com “HONRA AO MÉRITO”...


Onde anda você, meu amigo?

Curitiba, 15 de abril de 2009.

quarta-feira, abril 22, 2009

Ausência


Faz tempo...

Faz tempo que não me permito a felicidade de escrever, de soltar as amarras e deixar minh’alma livre, fugindo da realidade e sumindo no sonho.

Estou como o pássaro engaiolado que não consegue nem cantar e se restringe a ver os dias passarem e passarem, nunca iguais... sempre cheios de sobressaltos e nuvens sombrias ou alegrias esperadas ansiosamente que demoram demais a chegar e, às vezes, quando vêm, o dia já está escurecendo e tudo perdeu a graça... já passou a hora e não mais importa...

Faz tempo...

O meu dia já vai escurecendo e meu tempo vai passando muito depressa. Será que ainda terei chance de me derramar em histórias e me exaurir escrevendo temas em que repasso minha maneira de enxergar as pessoas no tempo e o tempo das pessoas com quem convivi? Às vezes um convívio irreal, fora completamente do estranho mundo em que vivemos, mas vívidas em minhas tramas e temas de um mundo sonhado e fantástico.

Eu prometi, no prefácio de minhas "Folhas-do-outono" que, como as folhas de outono, rolando e se esfacelando ao vento, expostas ao tempo, eu arrancaria de mim os enredos e tramas, histórias e crônicas que talvez pudessem até ser apreciadas por pessoas que procurassem na leitura um passa-tempo, uma identificação ou até um pouco de conhecimento ao se embrenharem por "lugares nunca dantes explorados".

Faz tempo que dei uma pausa e que nada mais escrevi.

As "folhas–do-outono" passaram por um vendaval, por um "tsunami" que arrastou tudo no turbilhão da vida. Estou ainda em estado de choque, desde que perdi minha filha CRISTINA. O desânimo, o desalento diante da impotência humana e da inexorabilidade da morte fizeram as "folhas-do-outono" caírem na correnteza desenfreada da vida e, em torvelinho, despencarem nos bueiros escuros do desencanto.

A tempestade passou, a devastação ficou, mas a vida continua, exigindo e cobrando continuidade e ação.

Então, aqui estou de volta e tentarei manter as "folhas-do-outono" rolando ao vento e se esfacelando e se desmanchando, e se despedaçando... até virarem pó.

sábado, março 31, 2007

Santuário Parananense de N.Sra. Aparecida



SANTUÁRIO PARANAENSE DE
N. SRA. APARECIDA

O Sr José Boz, meu sogro, era gaúcho, filho de imigrantes e criado numa colônia de italianos. Era semi-analfabeto e mal falava o português. Um dia, adolescente, resolveu ganhar o mundo e partiu de Caxias do Sul, junto com o irmão, Vitório, rumo norte, atravessando Sta. Catarina , parando onde encontravam trabalho e aceitando todo tipo de serviço que lhes garantisse sobrevivência.

Sempre seguindo rumo norte, levaram anos. Atravessaram Sta. Catarina e entraram no Paraná, sempre atrás de melhores oportunidades, trabalhando em lavouras, cuidando de cavalos, derrubada de árvores, colheitas, trabalhando de carroceiro, em construção de casas etc. Eram rapazes fortes e muito trabalhadores. Meu sogro chegou a aprender o ofício de “ferreiro”.

Por caprichos do destino, ambos terminaram por ”enroscar” o coração na região de Palmas , onde o Sr. José se casou com dona Etelvina e o Sr. Vitório com dona Carolina.

Dona Etelvina tinha apenas treze anos quando se casou. Era órfã e herdeira duma vasta extensão de terras, numa região muito linda e privilegiada, com cerrada mata nativa, nascentes e um campo a perder de vista, denominada HORIZONTE , no planaltão, próximo à cidade de PALMAS no Paraná.

Alí se enraizaram, trabalhando muito. Tiveram treze filhos, criaram doze, dos quais sete homens e cinco mulheres.

Nos idos de mil novecentos e vinte as dificuldades eram enormes, não havia nada de conforto, meu sogro, aí já muito conhecido como JOSÉ ITALIANO, construiu a casa ele mesmo, cortando as árvores e preparando as tábuas. Em tudo dependiam da cidade mais próxima onde chegavam de carroça, levando dias entre a ida e a volta.

Passaram por toda sorte de dificuldades e nunca esmoreceram. .Enfrentaram até um incêndio que lhes destruiu a casa e perderam tudo o que já haviam conseguido. A família foi acolhida por uns tempos na casa de Francisca, irmã de minha sogra, enquanto meu sogro construía um rancho rústico de madeira lascada e coberto de tabuinhas, de chão batido, que, pequenino, mesmo assim os protegia do frio. Sofreram e trabalharam muito, e o Sr, José, aos poucos, foi construindo uma nova casa, ampla e mais confortável.

Com o passar dos anos, as crianças crescendo, e eles morando tão longe das cidades mais próximas, meu sogro começou a se preocupar com o estudo das crianças. Conseguiram colocar as duas filhas mais velhas no internato do colégio das Irmãs, em União da Vitória, mas percebiam que seria quase impossível fazer o mesmo com todos os outros. E, depois que lá ficaram dois anos, as meninas voltaram para casa

A fazenda crescia e eles prosperavam com a criação de gado, o que já lhes permitia pensar no que, naqueles tempos e naquelas lonjuras, poderia ser considerado um luxo dispensável.---dar estudo a todos os filhos..

O destino também se incumbiu de ajudar, e eis que um dia por lá apareceu um professor em viagem, que depois de conversar bastante com meu sogro, aceitou morar na fazenda e tratar da alfabetização da meninada.

O professor era um senhor de barbas brancas que se dedicou com empenho à educação das crianças e de quem todos se lembram até hoje com um carinho muito especial.

Todos foram alfabetizados e alguns se destacaram, dentre eles meu marido, GERALDO, que, por ser muito esperto e bom “nas contas” como se dizia antigamente, recebia do velho professor, Sr Augusto, atenção especial. Quando ele lá chegou, o Geraldo tinha apenas cinco anos e, como não alcançava a mesa direito e queria escrever, aprendeu as primeiras letras no colo do professor

O Sr. Augusto dizia para meu sogro investir no Geraldo, que o mandasse estudar na cidade porque ele Alí, estaria sendo desperdiçado.

Meu sogro então comprou uma casa em União da Vitória e para lá levou as crianças , tendo as irmãs mais velhas, Isolina e Iracema, como responsáveis pela gurizada. Todos tiveram chance de estudar, mas depois de uns anos, alguns abandonaram. Dos homens, só Geraldo continuou e meu sogro, muito orgulhoso, trouxe o filho para a capital, Curitiba, para que ele fizesse um curso superior, que, pelo gosto do pai, seria medicina. Mas meu marido optou pela engenharia, já que sua matéria preferida era a matemática.

Custeado pelo pai, aquí viveu oito anos, onde fez o curso científico e depois engenharia na UFPR. Terminado o curso, ingressou no antigo DGTC(Departamento de Geografia, Terras e Colonização) e foi trabalhar no norte do Paraná.

Entretanto, enquanto Geraldo estudava, ele comprou mais uma fazenda, S. Sebastião, e colocou-a no nome dos outros onze filhos pois, considerando-se que custeava os estudos do Geraldo, já lhe estava dando uma fatia polpuda de recursos.

Nesse meio tempo, todavia, duas irmãs do Geraldo também foram fazer faculdade em Ponta Grossa, custeadas pelo pai.

Foi por ocasião da formatura de uma delas em odontologia, Dirce, que eu e Geraldo nos conhecemos e viemos a nos casar.

Moramos em Londrina, onde nosso filho mais velho nasceu e, em mil novecentos e sessenta e um, quando o Junior. tinha cinco meses, fomos para CAMPO MOURÃO, onde nasceram nossas outras duas filhas e lá vivemos por dez anos.

Fazia poucos meses que estávamos em Campo Mourão quando minha sogra e meu sogro vieram nos visitar e ficar uns dias conosco.

O Sr, José, após o café da manhã e como Geraldo estava trabalhando, saia a passear pela cidade. Ele gostava muito de andar e era muito conversador.

Um dia, em que ficamos a conversar após a refeição, o Sr. José disse ao Geraldo que o principal motivo da vinda dele ao norte era lhe trazer um dinheiro. Meu marido se espantou, não estava sabendo de nada!

Que dinheiro?

O Sr. José Italiano então disse que, quando ele comprara a fazenda S, Sebastião apenas o Geraldo ficara de fora mas, como depois mais duas irmãs se formaram também custeadas por ele, concluiu que o Geraldo tinha ficado no prejuízo, e que, agora, mandara avaliar a fazenda e, dividindo-a em doze partes, estava trazendo para o filho o que ele achava justo ser a parte dele.

Não é preciso dizer o quanto discutiram, pois meu marido não aceitava de jeito nenhum o presente

Meu sogro tentava convencê-lo, dizendo que investisse numa sociedade, abrisse uma firma, comprasse terras ou algum imóvel, mas meu marido não queria saber de conversa.

Uma manhã, após o café, Sr José Italiano saiu sem muita prosa .Chegou a hora do almoço e nada dele aparecer. Esperamos e esperamos, meu marido já estava preocupado achando que ele se perdera ou tivera algum mal súbito, quando ele chegou, numa camioneta, muito satisfeito da vida.

Perguntamos o que acontecera e ele respondeu :

--Pois eu estava fazendo negócio! E me trouxeram em casa quando eu disse que era seu pai!

--Mas o que o senhor andou aprontando, pai? perguntou meu marido

--Aprontei, sim!... Eu é que não ia voltar para casa com essa dinheirada!... Agora eu já comprei o que achei certo e pronto! Já está no seu nome e agora é só ir no cartório assinar!... Se você não gostar, azar! Faça depois o que quiser!...

--Mas o que o sr. fez, pai?

--Nada!... Nada demais!... Comprei uma chácara aquí dentro da cidade. Nas minhas prosas por aí, fui me informando, e, conversa daqui e conversa dali, me contaram dessa chácara, que o dono estava vendendo porque estava apertado. Hoje me levaram lá ver!... Gostei bastante!...

--Mas pai! Eu não tenho nem tempo nem cabeça para cuidar de chácara!

--Não faz mal!... Deixa lá... ela começa numa rua grande que já está aberta... deixa lá... não precisa fazer nada... está na mata fechada mas daqui uns anos a cidade chega lá... daí você loteia e vende os lotes... faça o que quiser, mas o lugar é bom... de futuro...

Bom, finalmente meu marido aceitou, acertaram tudo no cartório e, dias depois eles retornaram para União da Vitória.

A chácara ficou lá, onde íamos de vez em quando , meu marido, depois de alguns anos fez o loteamento, registrou as plantas, mas nada vendeu. Tudo continuava no mato cerrado.

Ele, em homenagem aos pais, deu ao loteamento o nome de JARDIM HORIZONTE, que era o nome da fazenda dos pais, onde ele nasceu...

Lá por volta de mil novecentos e sessenta e oito eu já estava lecionando no Colégio Estadual e na Escola Normal e envolvidíssima na assistência social, batalhando pela APMI (Associação de Proteção à Maternidade e à Infância) e tínhamos, na vila Urupês, um Clube de Mães que funcionava para tudo: palestras, vacinações, aulas de costura, consultas médicas e, aos domingos emprestávamos o recinto para a missa.

Nós, da APMI, éramos sempre convidadas e sempre algumas de nós se fazia presente nas missas para estar junto de nossos protegidos.

Numas dessas vezes, começou a me incomodar a grande afluência de pessoas e o espaço tão exíguo. Minha cabeça começou a me incomodar e eu me dizia :

--“Temos de dar um jeito numa igreja para essa gente! Aqui está pequeno demais!”

E uma idéia começou a se formar em minha cabeça... Nosso loteamento era Alí ao lado, muito próximo... e se déssemos um lote para construírem uma capela?.

Tal idéia não me deu mais sossego e fui, muito com jeito, tentar convencer meu marido. No princípio ele nem me dava resposta mas, quando viu que eu não dava trégua, começamos a brigar. Ele dizia :

--...e porque você resolveu que NÓS é que temos de dar um lote para a tal da capela que você inventou ? A cidade está cheia de madeireiros ricos, de fazendeiros cheios da grana!... porque NÓS é que temos de doar lote para a Igreja? Pode esquecer isso!...

Foi muito difícil, mas afinal, consegui, alegando que nós éramos abençoados com filhos sadios e que tudo ali nos fora dado pelo pai dele, e que não era tanto assim doar UM lote no Jardim Horizonte para tanta gente boa...

Bom, aí começou uma nova briga... Eu disse que queria escolher o lote... Meu marido disse que ele é quem escolheria.

Fomos até a planta e eu lhe mostrei onde queria a capela.

--Você ficou doida ? Um lote de esquina na avenida. Jorge Walter? O “filé mignon” do loteamento? Você não sabe que os lotes que dão para a avenida são os mais caros ?

--Claro que eu sei! Mas então onde é que você quer colocar a igreja ?

Ele me mostrou um lote no meio do loteamento.

--O que? Você vai dar um lote no meio do mato? O que que é isso? Nem pensar!... Até que se abram as ruas vai demorar anos para sair essa capela...

--E daí? Veja...Estou dando um lote de esquina, como você quer!...

--De jeito nenhum! Essa capela é para sair já, não para daqui a uns anos! Eu quero aquí... na esquina da Jorge Walter,, junto da Vila Urupês...

Afinal, depois de muitos vais e vens, ele concordou...

Fui logo levar a notícia para o sr. Bispo, Dom Eliseu Simões Mendes, nosso vizinho, que a recebeu com muita alegria.

Rapidamente a notícia se espalhou e o povo, muito feliz, orientados pelo padre que Dom Eliseu designou para ajudá-los, já se organizou em comissões para tratar de angariar dinheiro para construir a capela.

Passados uns dois meses, o grupo de paroquianos lá da Vila Urupês, nossos conhecidos, vieram muito solenes nos visitar, dizendo que queriam comprar mais uns dois lotes, porque não tinham espaço para fazerem as festas que precisavam para juntar dinheiro.

O Geraldo, pressionado pelas novas circunstâncias, mesmo não interessado em vender nada do loteamento, concordou, e vendeu-lhes, a preço mínimo e a longo prazo, dois lotes junto ao primeiro.

Nessa ocasião me passou pela cabeça perguntar-lhes quem seria o padroeiro ou padroeira da nova igrejinha. Perguntei-lhes se já haviam escolhido .Muito alegre, um deles respondeu :

--Ah já escolhemos, sim senhora!...É N. SRA. APARECIDA!

Foi um choque, tanto para mim quanto para meu marido..

É que N. Sra. Aparecida era a padroeira de minha sogra e, tanto, que meu marido ao nascer, foi batizado na fazenda com o nome de Geraldo Aparecida. Foi muito emocionante para nós, que nunca mencionáramos nada disso a ninguém, nem faláramos sobre nossa preferência por qualquer santo.

Meses mais tarde, fomos visitados pelo Sr. Bispo que nos disse ter mandado fazer um levantamento na região e que ali, onde queríamos, não seria possível erguer a capela.

Eu fiquei até sem fala e devo ter feito uma cara muito triste, pois em seguida Dom Eliseu começou a rir, dizendo:

--Calma, calma, dona Walkyria! Eu vim justamente para lhes dizer que ali não comporta uma capela e, sim, uma PARÓQUIA!

--Uma PARÓQUIA ? Santo Deus!!! Que beleza! E comecei a chorar de emoção.

--Pois é, dona Walkyria , e eu vim pedir a vocês que nos vendam mais lotes ali junto dos outros, porque agora, precisamos de espaço.

E nos compraram mais uns lotes, que formou, afinal, um quarto do quarteirão.

Logo depois viemos para Curitiba e daí meu marido resolveu abrir o loteamento e começou a vender os lotes, para podermos comprar uma casa aquí em Curitiba.

Demoramos anos para voltar lá e, só a seis anos atrás, que fui de carro com meu filho e netos, pedi a ele para irmos ate lá. Queria ver como estava a igrejinha.

Não conseguimos entrar. Estava tudo em obras, cheio de tapumes e colunas cobertas e homens trabalhando. Perguntei a um deles que estavam fazendo e ele me respondeu;

--Estamos erguendo a terceira igreja encima da segunda!

Fiquei olhando, intrigada com o tamanho da obra mas, afinal, partimos sem visitar a igreja.

Só agora, em dez de outubro de dois mil e seis , por ocasião da MINHA FESTA , quando recebi o título de Cidadã Honorária de Campo Mourão e que fomos de ônibus, meu marido, meus filhos, netos, parentes e amigos, até lá, é que resolvi ver como estava a igreja e contar, para todos os que estavam conosco, a história dela.

Foi mais uma das grandes emoções que passei nesse dia...

Primeiro, ver o porte majestoso da construção, com N. Sra. Aparecida lá encima do portal, depois o tamanho e a beleza da igreja por dentro.

Eu olhava tudo, estarrecida. Como ? Como daquela idéia modesta que eu tivera, de construírem uma capelinha, resultara em algo tão grandioso (guardadas as proporções do lugar, é claro)?

Eu estava engasgada de emoção e creio que meu marido também pois ele estava com os olhos marejados de lágrimas.

De repente o vigário apareceu. Vendo o ônibus e tanta gente descendo, resolveu vir conversar conosco e, quando eu contei da nossa surpresa com o tamanho da igreja e contei quem éramos, ele nos deu uma benção especial, conversou conosco , nos levou a ver a capela no subsolo e a sala dos milagres. Alí haviam mulheres lavando o chão, outras varrendo e o vigário nos disse que estavam preparando a igreja para a festa dali a dois dias (doze de outubro) que é o dia de N. Sra. Aparecida e que esperavam muita gente, muita gente, porque aquela igreja, a nossa igreja, no Jardim Horizonte de Campo Mourão, fôra elevada a SANTUÁRIO PARANAENSE DE NOSSA SENHORA APARECIDA.

Minha alegria era enorme, ao ver minha família conhecendo tudo e, por mais uma vez, agradeci a Deus por ter me usado como instrumento de sua vontade.

Minha sogra também, onde quer que esteja, deve estar feliz vendo que sua padroeira está dignamente instalada e que soubemos agradecer o presente que nos deram, homenageando sua santa de devoção...

...e que ela, N. Sra. Aparecida, sempre proteja minha família...

AMÉM.

Curitiba, 03 de novembro de 2006.

Walkyria Gaertner Boz